“Feliz é aquele capaz de viver da escrita, com espaço e tempo próprio, sem interrupção de outras pessoas.” Era o que eu pensava…

Enquanto mantenho meu emprego na área de informática e me dedico a este blog, eu busco oportunidades de elaborar e aprimorar as minhas próprias histórias. Invisto boa parte do meu tempo em leitura, esta sem faltar um dia, inclusive feriado e finais de semana. Já não consigo o mesmo com a escrita. 

É uma luta conseguir três dias livres numa semana para desbravar a tela branca do word, além de outros períodos pequenos quando edito os textos e as resenhas do blog. O emprego me toma o dia todo, chego esgotado em casa onde moro com meus pais, tento trabalhar com o meu notebook quando os bons velhinhos não precisam de mim e meus adoráveis cachorros não resolvam latir contra o outro. 

Menino Mau - rotina

Menino mau >:(

Fim de semana tenho a manhã comprometida com o rádio ligado da senhora minha mãe até a hora do almoço, só começo a escrever de tarde. Se eu fosse religioso, rezaria pelo bom senso da vizinha não explodir funk como se estivessem tocando na minha casa. E o mais incrível: não sei por que é tão fácil jogar videogame mesmo ocorrendo todos esses empecilhos. 

Tentei planejar uma mudança drástica, com melhores condições de ter o tempo desejado: morar sozinho. Poderia ter o espaço tão querido para desenvolver essa profissão, mas o custo tomaria quase tudo de mim, tanto no quesito financeiro como de desgaste. 

Desisti desta ideia e desanimei. Felizmente recuperei meu ânimo, precisaria ser grato por cada oportunidade de criar meus textos. Também fiquei curioso com a seguinte questão: os autores famosos conseguiam se empenhar numa rotina? Eles precisaram ficar reclusos? Pesquisei sobre a rotina de alguns deles, esses mostrados a seguir: 

Autores que não poderiam ser incomodados 

  • Charles Dickens sua necessidade pelo silêncio o fez abafar os barulhos de fora ao instalar uma segunda porta em seu local de criação. Seu espaço era organizado com critérios rigorosos, como a mesa de frente a uma janela já com os materiais de trabalho dispostos e enfeites próximos a si, como vasos de flores frescas e estatuetas; 
  • Liev Tolstói escrevia todos os dias com o objetivo de não perder o hábito. Trabalhava de forma isolada, ninguém tinha permissão de interrompê-lo, e todos os cômodos próximos deviam estar trancados; 
  • Mark Twain tomava café da manhã e já se isolava até o fim de tarde, nem almoçava. Se a família precisasse dele, tocava um instrumento de sopro; 
  • H.P. Lovecraft seu receio em relação a estrangeiros e racismo (infelizmente) inspiraram as suas histórias de horror. Lovecraft também era conhecido por ser tímido. 

HP Lovecraft - rotina

Nunca imaginei metodologias tão distintas como a desses autores. Analisando as abordagens de Tolstói e Twain, jamais colocaria tantos obstáculos a pessoas próximas por causa de minha carreira. 

Lovecraft conseguiu elaborar incríveis contos com seu isolamento, criou uma mitologia e o próprio mundo imaginado. Porém sejamos sinceros: os diálogos são raros em seus contos, e esses de fato não são o ponto forte de H.P., pois reflete na própria deficiência de se comunicar com outras pessoas. 

Autores com rotinas equilibradas 

  • Victor Hugo escrevia durante a manhã após tomar seu café numa pequena mesa de frente a um espelho. Ao encerrar a manhã, jogava um balde de água fria sobre a cabeça, se revigorava e fazia outras atividades pelo resto do dia; 
  • Haruki Murakami acorda às quatro horas da madrugada e criava seus textos por seis horas seguidas, pratica atividade física a tarde, lê e ouve música a noite, e dorme as 21h; 
  • André Vianco acredita que a rotina e disciplina são necessárias na realização de seus sonhos e controle de ansiedade. Escreve durante a manhã e realiza os outros trabalhos à tarde; 
  • Stephen King um exemplo de produtividade e quantidade de livros publicados, não exclui um dia da sua vida na escrita. Não para até atingir a cota de duas mil palavras diárias. 

Um espaço para chamar de meu - rotina

 Autores com limitações 

  • Franz Kafka trabalhava durante o dia e só escrevia quando todos da casa dormiam, às 22h ou 23h30 até 2h ou 3h da madrugada, já conseguiu se dedicar até às seis horas da manhã; 
  • George Orwell também mantinha outro emprego, incapaz de viver somente da publicação mesmo com o primeiro livro bem aceito. Encontrou um trabalho de horário flexível, e aproveitou o tempo livre nos romances, em torno de quatro horas diárias. Fez a distopia 1984 numa casa de fazenda remota já com a saúde debilitada, datilografando na cama; 
  • George R. R. Martin tem outros compromissos além dos romances e um modo de criar a história que compromete o tempo da conclusão de suas obras: ele se considera um autor tal como jardineiro, planta as sementes da sua história e observa como ela se desenvolve. 

O autor de Guerra dos Tronos tem consciência sobre a existência de dias produtivos e outros nem tanto, e é normal ser desta forma. Mesmo com a melhor ferramenta e eliminando distrações, haverá dias com somente uma frase na página, quem sabe menos. 

Sam Tarly - rotina

E há a Jane Austen 

A autora de Orgulho e Preconceito misturava a rotina com a da sua família. Escrevia na companhia de sua mãe e irmã durante o dia, de noite lia seu manuscrito em voz alta para a família. 

Dentre todos os exemplos de rotina, gostei mais da Austen por conciliar o seu trabalho com as outras pessoas da casa, sem restrições absurdas ou dificuldades aparentes.  

Agora pergunto: qual o problema de não conseguir adotar a rotina de Jane Austen na minha vida, ou a de Stephen King ou Vianco? Depois de conversas entre amigos, aulas relacionadas no meu curso de preparação do romance e reflexão nesses vários exemplos mostrados, respondo: nenhum. 

Veredito 

Cometi um erro grave ao pensar que eu precisava de uma rotina com espaço e tempo garantido. São com certeza fatores essenciais ao escritor, mas é um erro idealizar essas condições e deixar de ser grato com a minha produção mesmo com essas limitações. 

Dou total razão ao George R. R. Martin sobre dias bons e ruins. Certo dia formei três mil palavras em apenas um dia, por que me importei mais quando mal consegui escrever quinhentas palavras? Ainda preciso fazer a revisão do texto, e talvez essas 500 palavras sejam mais proveitosas do que as três mil do outro dia, a ponto de serem descartadas. 

Comemore os dias bons - rotina

Comemore os dias bons

A besteira continua por eu limitar a minha visão por causa desta dificuldade. Vi autores com rotina garantida, entretanto isso não impede de eles não terem outras dificuldades, nem mesmo sobre a qualidade de seus trabalhos. Já mostrei as críticas quanto a H.P. Lovecraft, o próprio S. King confessou sua dificuldade com a produção de Sob a Redoma e de seus problemas pessoais idênticos ao protagonista de O Iluminado, ou quando sofreu o acidente de carro, problemas que interferiram nos trabalhos literários. Mesmo eu elegendo seu livro como a melhor leitura do primeiro semestre de 2018, tenho ciência que a qualidade de seus livros diverge, nem todos são grandes obras, outros têm críticas negativas, assim como as obras de André Vianco ou dos demais autores citados. 

Prosseguirei na jornada de escritor enquanto me mantenho como técnico em informática. Aprenderei a agradecer por cada avanço em meus textos e continuar nesse trabalho. Mesmo se demorar mais tempo pelas minhas restrições, não preciso de pressa, mas sim de aproveitar a escrita enquanto ela acontece. 

Referências

Minimalism, Success, and the Curious Writing Habit of George R.R. Martin

George R.R. Martin’s friends explain the complicated reasons his next book might be taking so long to write

11 Writing Lessons From George R.R. Martin, Because There’s A Lot To Learn From ‘Game Of Thrones’

The Daily Rituals Of Famous Writers

George Orwell’s Writing Habits

Entrevista | André Vianco

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