Comentei no post anterior sobre a perspectiva de um ano melhor no que diz respeito ao aspecto pessoal. Um ponto de vista em que deve prevalecer com o intuito de não se desmotivar e ajudar o próximo em troca de uma simples gratidão. 

Já este artigo tem um objetivo diferente.

Noooooooo! - O Grande Problema de 2018

Chegamos na metade do primeiro mês no ano e já ouvi comentários do tipo: “Se 2017 foi ruim, se prepara pelo pior em 2018.” Infelizmente pode ser verdade.

É o ano de eleição dos nossos representantes federais e estaduais. Escândalos políticos são transmitidos por grandes veículos de imprensa, também em páginas e grupos menores nas redes sociais. A imagem geral da população é que nada se resolve neste país.

Infelizmente muito disso é um reflexo das nossas ações e omissões. Uma população desinformada não conseguirá impor demandas possíveis ou denunciar o que de fato está errado. Um povo pouco crítico não avalia o conteúdo divulgado na sua tela, compartilha inverdades, e debate com xingamentos no lugar de argumentos. 

Nunca se teve tanta informação como hoje. É realmente difícil de assimilar tanto conteúdo. Só que infelizmente muitos fazem um péssimo uso desta variedade. Selecionam os que são verossímeis, o que seu guru diz, ou o que os números apontam. 

Elenco a seguir os piores problemas que já existem e podem se agravar neste ano de copa. Não é uma imposição, pois não sou dono da verdade. Apenas aconselho a caso se identificar com um dos tópicos, reveja seus conceitos. Não mudaremos a situação do nosso país sem começar a transformação em cada um de nós. 

Expectativa X Realidade

O Brasil foi o segundo país com a maior população que possui falta de conhecimento sobre a realidade de onde mora.  

Negativo - O Grande Problema

O instituto Ipsos fez um levantamento em 2017 com 38 países. Questionou cerca de 29 mil pessoas sobre a porcentagem de ocorrências em determinado assunto em relação ao país onde vive, além de algumas questões de abrangência internacional. Foram perguntas como taxas de homicídios, nível de pessoas com diabetes, gravidez na adolescência, e atentados terroristas. 

As respostas tiveram valores superestimados. Os brasileiros imaginam a situação do país muito pior do que é na realidade. Provavelmente um resultado das muitas notícias negativas, estas que possuem bem mais impacto que as positivas.

Com a população desentendida da própria realidade, a prioridade não ficará direcionada aos problemas que de fato acontecem. Um exemplo: priorizar a educação quanto a prevenção de gravidez na adolescência — cuja taxa real é 6,7% contra a presunção de 48% — em vez da prevenção contra acidentes provocados pelos motociclistas, estes correspondentes aos 74% dos acidentes de trânsito de janeiro a novembro de 2017.

A instituição disponibilizou um quiz com algumas perguntas levantadas nas entrevistas (infelizmente as perguntas estão em inglês, mesmo no quiz do Brasil). Eu fiz o questionário tanto na realidade do nosso país como nos Estados Unidos, e preciso rever minha perspectiva: acertei três de oito no quiz do Brasil, mas cinco nos EUA.

Oito perguntas não são o suficiente para apontar todos os aspectos da sociedade em nosso país (seis se considerar que duas são de abrangência internacional). Ainda assim já aponta que eu também preciso rever meu ponto de vista e buscar mais informações do que acontece no Brasil. 

Conhecimento científico da população 

O Instituto Abramundo avaliou o nível de conhecimento científico de cidadãos moradores das regiões metropolitanas do Brasil. 

Na pesquisa foi definido quatro níveis de proficiência: 

  • Nível 1 – Letramento não-científico: assimila informações explícitas de contexto cotidiano, sem domínio de termo ou aplicação científica; 
  • Nível 2 – Letramento científico rudimentar: resolve problemas de interpretação e comparação com informações científicas básicas; 
  • Nível 3 – Letramento científico básico: capaz de resolver problemas a partir de evidências científicas apresentadas de forma técnica em diferentes contextos; e 
  • Nível 4 – Letramento científico proficiente: são capazes de argumentar sobre hipóteses, conhece unidades de medidas e tem consciência de assuntos do meio ambiente, saúde, astronomia ou genética.

Yeah, Science!

No resultado da pesquisa, 64% dos cidadãos possuem no máximo nível 2. Somente cinco de cada 100 tem um letramento científico proficiente. 

O instituto distribuiu essas variáveis em outras classificações, como renda, escolaridade, profissões, idade e outros. Senti uma dor no peito ao ver que dos profissionais de educação, apenas 10% são do nível 4; além dos profissionais de saúde com apenas 8% no maior nível, e a metade correspondente desta profissão está no letramento rudimentar. 

Como disse antes, a quantidade de informação exposta é absurda, seja elas verídicas ou verossímeis. Considerando o conhecimento científico da maioria ser de nível regular, infelizmente é de se esperar que muitos são levados a teorias conspiratórias e curas milagrosas.

Realidade Transformada pela Inteligência Artificial

O avanço nos sistemas de inteligência artificial expande cada vez mais as possibilidades de criar conteúdo. Infelizmente também pode gerar materiais perturbadores. 

Algoritmos de aprendizado de máquina e um computador moderado já é o suficiente para trocar o rosto de uma pessoa em um vídeo. Já circulam pela internet vídeos pornográficos com rostos de atrizes famosas de cinema, quando na verdade é apenas uma atriz pornô que teve sua face substituída no vídeo. 

Mulher Artificial

A inteligência artificial é alimentada com inúmeras fotos da celebridade, todas disponíveis na internet. Tais fotos são colocadas, quadro a quadro, no lugar do rosto da profissional do vídeo com uma expressão semelhante. 

Existem falhas no material, e nem precisa de um olhar tão atento. Há momentos em que o rosto não aparece ou fica desalinhado, e os lábios não estão de acordo com a fala. Porém isso pode ser entendido como um problema do arquivo de vídeo, ou simplesmente não ser levado em consideração na hora de compartilhar no “zap”.

E se combinar a troca de rosto com simulação da voz de uma pessoa, mesmo ela nunca ter dito algo do tipo? Isto já é possível com os recursos disponíveis.

Fora os vídeos eróticos com celebridades…

Não percebeu o perigo? Considere este cenário: um vídeo editado com uma pessoa qualquer, onde o rosto é substituído pelo presidente dos Estados Unidos e a fala é programada com a voz do mesmo. Ainda está tudo bem por ser um político que despreza? E se trocar pelo seu político favorito? Ou pelo seu cantor? 

É um recurso viável e pode destruir a imagem de uma pessoa defensora do ponto de vista diferente. Além do debate político aconteceria uma disputa de vídeos artificiais constrangedores. #IstoÉMuitoBlackMirror

Bots na Política

A eleição presidencial de 2014 teve o maior número de interações de usuários online neste período com relação as campanhas anteriores. É possível que a população realmente estivesse mais engajada do que nunca. Mas as redes sociais também foram transbordadas por bots.

Inúmeros perfis falsos foram criados a partir de programas, cujo algoritmo instruía interações nas redes sociais com curtidas, compartilhamentos, e até comentários.

Pessoas falsas

Empresas oferecem este tipo de “serviço”, e são fáceis de serem encontradas. Poderiam garantir 3.000 curtidas na fanpage por duzentos reais, ou 10.000 likes em único post com R$90,00.

Os dois antagonistas da eleição (Dilma e Aécio) utilizaram bots em suas campanhas, tendo o Aécio usado mais deste recurso. Os perfis de algoritmos continuaram após a eleição, e participaram das campanhas relacionadas ao processo de impeachment da presidente. 

Este cenário político de 2014 foi o início, 2018 com certeza será pior. Os perfis falsos bagunçam as estatísticas das próprias redes sociais. Geram falsos engajamentos que irão levar esses conteúdos a pessoas reais, estas que irão acreditar nas notícias falsas, vão priorizar campanhas que são fora da realidade, e não serão capazes de distinguir a veridicidade da verossimilhança. 

Quem poderá nos defender? 

Estes foram os tópicos destacados, capazes de causar o grande problema deste ano: a ignorância. Muitos aspectos contribuem para que os indivíduos permaneçam alienados enquanto são bombardeados com notícias e matérias falsas, mas que entregam o conteúdo já esperado. O conteúdo que “mostra a verdade do meu inimigo” e “enaltece o meu guru salvador.” 

É como aquela casa de espelhos do parque de diversões. Só que em vez de surgir imagens distorcidas de você mesmo, são telas com informações nada realistas que serão impostas ao seu redor. Pelo menos a solução pode ser a mesma de uma casa de espelho normal: olhe os próprios pés. 

Avalie a si mesmo. Compreenda qual o seu nível de conhecimento e procure ampliá-lo. Não compartilhe opiniões sem analisar se o autor é de fato um humano, questione a vericidade do conteúdo. Veja além dos números nas redes sociais, enxerga as pessoas que estão por trás daquelas telas.

2018 needs you!

2018 needs you!

Serei sincero o bastante e afirmarei que 2018 não terá jeito. O período de eleições será transbordado de calúnias e ataques de ódios entre opositores. Vai atingir pessoas sem relação com partidos só para alavancar a imagem do seu próprio.  

Mas se começar a mudar a perspectiva hoje, seremos uma população mais crítica amanhã. Não iremos engolir o que é propagado por máquinas só com a intenção de danificar a imagem alheia. Vamos focar no conteúdo, saber interpretá-lo e traçar uma opinião com base no conhecimento. Respeitar o próximo acima de tudo.

E isto não será fruto de uma utopia, um sonho. Será o resultado de muito trabalho e reavaliação.


Referências

Perigos da Percepção 2017

Boletim Estatístico de Janeiro a Novembro de 2017 (DPVAT)

Indicador de Letramento Científico (2014) 

AI-Assisted Fake Porn Is Here and We’re All Fucked 

Computational Propaganda in Brazil: Social Bots during Elections 

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