Pouco se fala das mitologias existentes no nosso país. Leitores e consumidores de modo geral estão acostumados a ver histórias sobre os deuses gregos, os egípcios, e ultimamente os nórdicos por causa do Kratos. Os artistas brasileiros também aproveitam de fontes internacionais para criar o seu trabalho, mas quando desenvolve obras com mitologias existentes onde moramos, ou eles são valorizados por trazer algo incomum, ou sofrem deboche por trazer algo inferior em vez das mitologias bastante conhecidas. 

Se o preconceito não é o bastante como limite ao acesso a cultura de povos presentes antes da intervenção europeia, a própria disseminação dessa cultura pode prejudicar o entendimento da mitologia indígena. Textos sem fontes definidas ou adaptações dos jesuítas que aproximavam as crenças indígenas com a cristã. 

Há também a dificuldade natural de haver uma visão distinta em cada tribo. Certos povoados tinham deuses distintos, ou sendo os mesmo com outros nomes e características distintas. Posso citar como exemplo os deuses Guaraci e Jaci, dependendo da tribo podem ser irmãos homens, um casal de gêmeos (sendo Jaci mulher) ou até terem relação incestuosa. 

Muitas dúvidas! - mitologia indígena

O objetivo deste breve artigo é apresentar os equívocos de alguns textos e apresentar o básico da mitologia que não é brasileira, mas de um povo indígena em específico: dos guaranis. Se abordasse as diversas mitologias indígenas no mesmo artigo iria complicar ao invés de elucidar sobre essa cultura. Considere este texto um ponto de partida capaz de ajudar um pouco na compreensão e desmistificar algumas afirmações. 

Tupã Cristão 

Tem-se a impressão do Tupã ser o deus principal da mitologia brasileira, assim como é Zeus e Odin com poder sobre o trovão. Isso se dá justamente pelos jesuítas quando tentavam aproximar a religião dos indígenas da cristã monoteísta. 

Mas como é história dos deuses contada pelos guaranis? A seguir um resumo: 

Guaraci* e Jaci são filhos gêmeos de Ñandecý com Ñanderuvuçú. Este último foi o criador do universo, criou um ser que virou seu auxiliar e a própria Ñandecý, o primeiro ser feminino. 

Ñanderuvuçú e seu auxiliar alternava seus trabalhos de criação do mundo com o acasalamento de Ñandecý, quando enfim engravidou dos meninos gêmeos. A mãe não reconheceu Ñanderuvuçú como o pai de seus filhos, e por isso ele se irritou a ponto de abandonar toda a sua criação e foi ao reino das trevas onde permanece até hoje. Ñanderuvuçú  impede o avanço das trevas, mas ele pode deixar essas irem ao mundo caso tenha vontade. 

Ñandecý precisou seguir em frente. Ainda grávida dos gêmeos ela se encontrou com os jaguares que querem devorar a ela e os bebês. A mãe morreu, mas os jaguares não conseguiram fazer mal aos dois bebês. 

Deuses criados por jaguar! - mitologia indígena

Guaraci e Jaci foram criados pelos jaguares até saberem por um papagaio sobre a morte de sua mãe, e assim os gêmeos se vingaram. Somente um jaguar fêmea sobreviveu, ela estava prenha e deu continuidade aos jaguares existentes até hoje (com ameaças de serem extintas). 

Os irmãos tentaram ressuscitar a mãe várias vezes, mas a falha persistiu. O processo corria bem, e Jaci se exaltava com a possibilidade de ter sua mãe, mas essa mesma alegria o desconcentrava a ponto de falhar na ressurreição, deixando a mãe morta. 

E onde entra Tupã nessa história?

Bem depois quando Ñandecý enfim é ressuscitada pelo Ñanderuvuçú e deu a luz ao deus. A presença de Tupã na mitologia guarani justifica a manifestação dos trovões e tempestades, mas passa longe da concepção do principal deus indígena. Eu não sou capaz de afirmar se ele é superestimado em relação a todas as culturas indígenas com a pesquisa feita. Só confirmo que na guarani não é o principal, e a versão mais difundida está sob influência cristã. 

O “Satanás” indígena 

Obviamente os jesuítas precisaram conturbar o conceito de algum ser indígena e torná-lo satanás. Atribuíram a Anhangá o papel de adversário do Tupã e relacioná-lo como alguém malvado. 

Todavia Anhangá é apenas um espírito protetor da floresta responsável pelo equilíbrio da vida. Ele até mesmo ajuda os caçadores que o presenteiam com oferenda e se a caça for para a subsistência dos humanos. 

Anhangá pode assumir formas de animais, como cervo (só que branco)

Anhangá pode assumir formas de animais, como cervo (só que branco e de olhos vermelhos)

Se os caçadores matam em demasia, assassinam filhotes ou animais que amamentam suas crias, o espírito se vinga de forma bastante perversa: Anhangá manipula a mente dos caçadores, cria ilusões e os confunde a caça com os próprios colegas, acabam se matando. 

A punição é severa e causa temor aos índios, por isso Anhangá foi eleito como o satanás pelos jesuítas. Porém esse espírito representa apenas o equilíbrio na vida, e ensina a respeitar os limites da caçada. 

Ficção não é mitologia 

Outra história difundida como parte da mitologia guarani é sobre Kerana e seus sete filhos. Algumas obras criativas usam a narrativa de Kerana como referência à mitologia, só que essa também não passa de uma ficção. 

Faz parte do livro Nossos Antepassados, do escritor paraguaio Narciso Ramón Colman. Escrita em espanhol e tupi, conta uma história com referências à mitologia guarani, mas não narra a mitologia em si. 

Não é necessariamente um motivo para diminuir a obra de alguém. Tal observação serve de esclarecimento que quando se refere a Kerana e seus filhos, está relacionando com outra obra literária ao invés de um mito do povo indígena, nada mais. 

Livro ≠ Mitologia

 


Não poderia afirmar e contestar os argumentos citados nesse texto sem citar de onde eu tirei as informações. A fonte principal foi o programa de podcast do canal Papo na Encruza em que Andriolli Costa esclarece sobre os equívocos transmitidos pelas redes (algumas até famosas). Não deixe de conferir esta e outras referências abaixo e saber mais das mitologias, pois ainda é pouco perto do conteúdo riquíssimo desses povos.

*Embora tratando sobre os povos guaranis, resolvi usar os nomes dos gêmeos em tupi, por serem mais conhecidos e fáceis de pronunciar

Referências

Papo na Encruza 17 (podcast)

Texto sobre Anhangá

As Lendas da Criação e Destruição do Mundo com Fundamentos da Religião dos Apopócuva-Guarani (pág. 47 a 67)

Classificação do risco de extinção aos jaguares (em inglês)

 

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