Who wants to live forever? Músicas, histórias e discussões alimentam o desejo de superar as limitações físicas e melhorar os nossos aspectos de vida. A breve história da humanidade traz situações controversas entre a evolução social e tecnológica frente a real melhora nas condições vitais. Nada impede os cientistas de estudarem e buscarem maneiras de transformar nossas rotinas, e isso ainda é bom em muitos sentidos.

Quero abordar no post de hoje quanto a possibilidade de manter a vida humana mesmo após a morte biológica, através do armazenamento e reprodução da mente e do comportamento do indivíduo em ambiente virtual. Será mesmo possível salvar a consciência de alguém no computador e reproduzi-la em outro ambiente? Confira o artigo e saberá mais desta discussão.

Redes Sociais como meio de eternizar pessoas

Os perfis das redes sociais podem dizer muito sobre quem é determinada pessoa. Empresas vasculham os conteúdos compartilhados aos candidatos de emprego antes de decidir a contratação. Amigos distantes podem manter as relações por esses sites, bem como namorados, que podem causar dor de cabeça após o término e ainda acompanharem a vida do ex no ambiente virtual.

É difícil obter a noção da quantidade de informação pessoal disponível de um usuário nesses sites, pois ela é gigantesca! Chega no ponto de empresas trabalharem na possibilidade de analisar as postagens e interações dos perfis, e então produzir algoritmos capazes de reproduzir os comportamentos depois de a pessoa morrer.

Sim. Você leu isso mesmo.

Rede Social após a morte - mind upload

Eter9 e Eterni.me

Eter9 é uma rede social criada pelo português Henrique Jorge, ainda em fase beta. O usuário da rede faz as postagens e interage com outras pessoas do site sem fazer nada de diferente. E enquanto o utilizam, a inteligência artificial analisa o comportamento de cada perfil para gerar o avatar correspondente àquela pessoa, e então este avatar postaria e interagiria da mesma forma durante a ausência do usuário.

Outra empresa com ideia semelhante é a Eterni.me. Sem rede social própria, ela sugere coletar informações pessoais já disponíveis na internet em outros sites e assim construir o avatar do indivíduo após seu falecimento. Mais ainda, o perfil do falecido poderá interagir com as pessoas vivas e próximas a ele.

Nem tudo são flores

A ideia pode até ser inusitada, pelo menos a execução é possível. A inteligência artificial precisa de muita informação gerada daquele usuário no ambiente virtual, e por isso a eficácia depende dos perfis serem ativos.

Toda esta quantidade da vida digital exposta de alguém acarreta noutras preocupações a serem analisadas. Precisa verificar se essas empresas garantirão a segurança desses dados, do contrário outros podem roubar toda essa informação e fazer atos ilícitos ou sem consentimento. Mesmo os perfis de pessoas mortas podem expor as das vivas por estarem conectados. Certos dados podem demonstrar o momento quando as pessoas estão mais vulneráveis a assaltos ou quais estão sujeitas a golpes de fraudes. Lembre-se que já aproveitaram dados do Facebook para propagar fake news ao público-alvo nas campanhas eleitorais.

Segurança digital - mind upload
Mantenha a informação digital trancada

Mesmo sendo possível, eu duvido quanto a eficácia de reproduzir uma pessoa real através da sua rede social, pois existem muitas maneiras de utilizar esses sites. Nem tudo da vida pessoal é exposto por lá; há quem faça postagens com intenção de criar uma imagem melhor de si, mesmo que seja falsa; além de comportamentos destoantes da pessoa e usuário, como o autor de ameaças virtuais que mal olharia nos olhos de alguém na vida real (felizmente).

Em suma se publica muitos livros do Stephen King, o sistema dessas empresas reproduzirão, na verdade, a pessoa idealizada pelo dono do perfil. E quem presenciar o comportamento emulado pelo avatar, verá a diferença da pessoa em carne e osso.

Mind upload

Tem como eliminar essa dependência de coletar o conteúdo feito pela pessoa afim de emulá-la. Consiste em pegar o cérebro de alguém, mantê-lo intacto até ser possível digitalizar todas as memórias e reproduzir os comportamentos do indivíduo para então ressuscitá-lo através da emulação por programas.

Calma, isso não é Blackmirror ou outra realidade fictícia. Há quem de fato trabalha nisso, como a Nectome.

Nectome é uma empresa de pesquisa dedicada aos estudos da memória. Sua proposta afirma a possibilidade de realizar o mind upload no futuro quando poderá emular a consciência da pessoa em ambiente virtual. Mesmo sendo algo futurista, os pesquisadores garantem de as pessoas de hoje já poderem armazenar seus cérebros através da operação que é garantida… de ser fatal.

Paciente morto - mind upload
O paciente está morto, vida longa à ele!

Destinado a pacientes de doença terminal, a operação consiste em preservar toda a constituição cerebral e mantê-lo assim até ser possível escanear e reproduzir a consciência. Para tal conservação, o cérebro ainda precisa estar ativo, em outras palavras, o humano deve se sujeitar a operação enquanto está vivo. Porém, este procedimento é fatal, e por isso feito apenas em pacientes com possibilidade legal de eutanásia.

A ideia soa absurda, e apesar de já ter pessoas interessadas, pode ser absurda mesmo. A Nectome teve parceria com o Instituto de Pesquisa de Massachusetts (MIT) que logo foi desfeita, pois o conhecimento vigente da neurociência não garante a eficácia da preservação do cérebro, tão pouco há garantia de reviver o cérebro no futuro através da digitalização.

Discussões sem fim

Só porque o MIT recusou uma iniciativa de mind upload e alegou falhas referentes à possibilidade, pouco significa a morte do assunto. Muitas discussões já foram feitas com pontos positivos e negativos, além de muitas outras que virão.

Duvidam da capacidade informática de conter e processar memórias no mesmo nível funcional do cérebro, porém inexiste evidência sobre os sistemas serem incapazes. Falam da impossibilidade de converter as memórias salvas em comportamentos idênticos aos humanos, e a resposta afirma haver avanços na neurociência sobre como as funções neurais funcionam e poderiam adaptá-las na emulação. Contestam da falta de contato físico na pós-vida virtual que resultaria em algo diferente da vida como conhecemos, e o outro lado alega sobre a experiência ser real no ponto de vista do indivíduo cibernético; mesmo considerando a criação do ambiente simulado onde as pessoas mortas conviveriam, ou a transferência da consciência delas em corpos sintéticos, esses de fato são desafios a serem avaliados em etapas avançadas deste estudo.

Discussão - mind upload
Os dois pontos estão certos… em discutir

Citei apenas exemplos vistos em dois artigos discutindo pontos contrários, e o debate com certeza é ainda maior. Este é o modus operandi de toda pauta científica, e deve fazer desta forma. Quanto mais autores de especialidades distintas entrarem na conversa, maior será o entendimento do assunto sobre a viabilidade.

É uma causa perdida?

E mesmo o mind upload sendo, no máximo, uma possível realidade apenas no futuro, significa que esses estudos feitos no presente geram pouco ou nenhum resultado? Pelo contrário! Pesquisas com objetivos distantes como esse podem beneficiar pontos intermediários.

Já disse no meio daqueles argumentos contrários sobre estudos da neurociência que descobrem como o sistema neural funciona e possibilita no futuro a reprodução dessas funções pelos programas de emulação da mente. Todo este estudo pode também gerar conhecimentos avançados e com esses dar oportunidades a outras pesquisas, como as de tratamento contra doenças degenerativas do sistema nervoso. Ou seja, quando ver pessoas se voluntariando em operações como a Nectome, não pense nelas como iludidas ou fanáticas por uma capacidade improvável, pois eles podem tornar possível os estudos capazes de curar doenças.

Pelo bem do mundo - mind upload
Pelo bem do mundo e da vida

Vivemos na época onde mind upload existe somente em ficção ou na obsessão de pesquisadores e idealistas ao futuro. Eu trouxe motivos para desconfiar dessas iniciativas atuais, e por outro lado mostrei benefícios em tópicos paralelos nesses estudos de resultado improvável. Sou a favor quanto ao prosseguimento dessas pesquisas e o incentivo à discussão como em qualquer outro tópico científico. Já sobre me sujeitar ao pós-vida, ainda prefiro tentar me eternizar através dos meus textos, deixando-os disponíveis mesmo após da minha morte.

Referências

** Todos os artigos usados como referência estão em inglês, infelizmente. **

Site da Eter9

Artigo sobre Eterni.me

Artigo sobre a Nectome

O rompimento entre MIT e Nectome

História sobre o neurocientista que deseja salvar a humanidade em computador

Sua mente jamais será armazenada em computador

Resposta ao artigo “Sua mente jamais será armazenada em computador”

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