Odeio começar este artigo respondendo a possíveis declarações de alguém que não leia ou compreenda o texto a seguir, ainda assim adianto: esta publicação não tem o objetivo de acusar determinado político. O cronograma deste blog é de conteúdo próprio toda segunda-feira e resenha toda quinta, ambos agendados às seis da manhã, mas escrito, revisado e editado dias antes da publicação. Portanto desconheço o resultado das eleições enquanto escrevo este artigo. Longe de protestar contra qualquer candidato, o texto critica apenas as fake news. 


Acertei em partes nas minhas previsões para 2018 no artigo feito em janeiro. O desconhecimento da população sobre o próprio país e a baixa compreensão científica foi aproveitada na difusão de informações duvidosas, mentirosas e satisfatórias ao viés do indivíduo. O uso da Inteligência Artificial nas edições de vídeo e manipulação da voz felizmente não se concretizou, digo, houve uma suspeita da qual eu me recuso a conferir. Caso alguém se dispor a fazê-la, vejo a análise depois.

Houve uma falha grave no meu artigo. Na hora de montar o roteiro, eu deixei de abordar um assunto, evitei estender aquele texto retirando justo o tema principal desta campanha eleitoral: as fake news. 

Fake News dot com

O título é verdadeiro, eu cansei de ouvir/ler o termo em inglês. Portais de notícias e canais de comunicação de diversos gêneros atraíram o público usando esta palavra-chave, além da oposição usar como recurso para declarar quando há acusação de atitudes impróprias. Fake news receberam os quinze minutos de fama, e alguns veículos de informação estão fazendo análises profundas sobre elas, e eu gostaria de contribuir neste lado da discussão com este artigo. 

Jornalismo sem credibilidade  

O mercado tradicional de jornalismo é uma das várias vítimas da crise econômica e das transformações de interação no mundo digital. Tomam atitudes duvidosas na tentativa de se manterem no mercado, como restringir o acesso ao material online e cobrar do usuário pelas notícias, incentivar os leitores a acessarem seu conteúdo regular com títulos sensacionalistas, até fazer atualizações automáticas nos sites para aumentar o número de visualização na página e garantir mais renda vinda pelos anúncios. 

Escolhas infelizes deixam o público descontente e perdem credibilidade mesmo quando publicam informações corretas. Somado a deficiência da formação e senso crítico da população quanto a realidade e conhecimento científico, muitos são incapazes de distinguir notícia de opinião e acusam membros da mídia tradicional como se todos fossem ativistas ou que distorcem fatos. Infelizmente eles só acusam ao invés de debater e verificar se de fato há algo de errado na publicação do jornal. 

Jornalismo desaprovado - fake news

Quando cometem erros, a empresa e os profissionais de imprensa possuem responsabilidade e devem ser punidos. Entretanto a população não possui a mesma responsabilidade, e qualquer pessoa é capaz de propagar informações em larga escala graças as redes sociais. Técnicos de informática, enfermeiros e jardineiros possuem liberdade em transmitir conteúdos — nem sempre verdadeiros — sobre economia, e ainda conseguem mais credibilidade que os meios oficiais de comunicação, pois são parentes, colegas de trabalho ou amigos, pessoas próximas e portanto mais confiáveis, ao contrário dos profissionais de imprensa sem contato familiar. 

Recursos das Redes Sociais 

A difusão de informação feita por indivíduos encontrou a terra prometida nas conversas de WhatsApp, o aplicativo de conversa mais usado no Brasil. O aplicativo possui transmissão criptografada de mensagens, ninguém tem acesso fora o transmissor e o receptor. As mensagens encaminhadas não indicam sua origem, ao contrário do Facebook que indica de quem a publicação foi compartilhada, então a fonte da informação no aplicativo acaba sendo a pessoa próxima do sujeito.  

E admiro a perspicácia de aproveitar o limite da conexão de dados para deixar o WhatsApp tão eficiente em propagar fake news. Como o acesso ao aplicativo e às redes sociais mais conhecidas é irrestrito nos planos de internet móvel, poucos vão buscar informação em outra fonte e serem cobrados pela franquia. Também alegam da rotina turbulenta impossibilitar alguém a gastar tempo na verificação da notícia, porém eu não entendo como conseguem a disponibilidade de consultar o WhatsApp e encaminhar mensagens, inclusive durante o expediente! 

WhatsApp no expediente - Fake News

Parabenizo também o uso dos recursos do Facebook na divulgação de fake news. A Cambridge Analytica conseguiu direcionar conteúdo ao público correto e influenciá-lo a favorecer seus interesses.  Foi preciso coletar uma quantidade massiva de dados pessoais na rede social, e eles conseguiram de maneira inteligente e sutil. Desenvolveram quizzes inocentes com temáticas relacionadas a músicas, séries, celebridades, horóscopo e personalidade. Porém na hora de compartilhar o resultado do quiz, a aplicação solicita permissão a conceder informações privadas da conta e as de seus contatos. Graças a popularidade do quiz e a mania de muitos aceitarem sem ler os termos de uso, a empresa de publicidade conseguiu reunir o maior banco de dados sobre os usuários a partir do Facebook, e usou os próprios mecanismos de anúncio da plataforma para direcionar conteúdos com precisão. 

A informação só é válida quando concorda com ela 

As fake news podem partir da notícia verdadeira, basta apenas manipular o enquadramento do fato. Montagens atribuindo fontes a canais onde jamais publicaram o conteúdo, recortes de textos originais ou até edições de vídeos foram usados como estratégia nas campanhas. Todos esses meios são, na maior parte, fáceis de serem flagrados como tendenciosos, então por que tanta gente acredita? Porque elas querem. 

Seres humanos não são incitados por fatos, e sim por emoções. A eleição foi decidida através do repúdio e do medo, e essas montagens são feitas aproveitando dessas emoções a convencer o eleitor sobre o mal propagado do outro lado caso vença. A pessoa reconhece seus receios naquela imagem ou vídeo e age naturalmente ao encaminhar aos amigos, pois ela acredita em fazer a diferença. 

Eleitores de 2018 - Fake News

Existe solução contra as Fake News? 

Um professor do município de Ourinhos, interior de São Paulo, criou o curso semanal para alunos do ensino médio sobre as fake news. A proposta da aula é pedir aos estudantes selecionarem notícias com características duvidosas, trazerem na sala e debater quanto a veracidade dessa. A iniciativa foi até reconhecida pelo projeto Inovadores, da Google. 

A internet é uma ferramenta universal e democrática, com espaço a todos os tipos de iniciativa, inclusive as úteis. Canais de divulgação científica trazem assuntos complexos com explicações simplificadas, mas embasadas em referências e trabalhos acadêmicos. Muitos desses divulgadores já sofreram repúdio semelhante a imprensa tradicional, questionando sua parcialidade ou competência. Eles devem ser avaliados e corrigidos como toda pessoa que expõe conteúdo ao público, e para as críticas serem honestas devem também conter embasamento e estímulo a discussão. É melhor oferecer condições a todos verem ambos os lados e ter compreensão mais ampla do assunto, do que apenas refutar uma pessoa. 

Discussões Embasadas - Fake News

Existem portais especializados em averiguar se determinada notícia é verdadeira. E-Farsas é o portal mais antigo e ainda bastante ativo, e vieram muitos outros depois deste, ainda mais agora com o exagero de ocorrências das fake news, como a iniciativa do Projeto Comprova. 

Eu poderia encerrar o artigo listando dicas de como identificar conteúdos falsos ou tendenciosos, alguns textos disponíveis na seção de referências fazem isso, inclusive. Entretanto sou pessimista o quão efetivo isto seria. A rotina continua turbulenta na maioria de nós, além de muitos serem indispostos a conferir as informações. É preciso demonstrar a importância de difundir conteúdo honesto e estimular a discussão sobre este, sem menosprezar o autor da informação. Publico este artigo depois da campanha eleitoral já ciente que convenceria a ninguém se estivesse feito antes. Tenho esperança deste texto servir de estímulo nas discussões do futuro serem honestas, com campanhas eleitorais baseadas em argumentos, que aborde as diversas pautas da sociedade com base em fatos e estatísticas no lugar de sentimentos, e maior disposição da população para estudar em vez de ver memes. Este é o Brasil que eu quero.


Referências

Eleições mexicanas são tomadas por notícias falsas no WhatsApp e ilustram o que pode ocorrer no Brasil

Como reconhecer uma notícia falsa para não compartilhar mentiras

A arte de manipular multidões

Para especialistas, difusão de fake news está ligada à crise do jornalismo

Professor usa fake news para ensinar ciência na escola

Facebook CEO Mark Zuckerberg testifies before US Congress: Highlights

Robert Mercer: the big data billionaire waging war on mainstream media

Projeto Comprova entra em operação para combater desinformação na campanha eleitoral

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