Byung-Chul Han publicou Sociedade do Cansaço, uma coleção de ensaios a analisar a sociedade do século XXI e na predominância de mal-estar psicológico graças a ânsia pela produtividade e, digamos, obsessão pelo bem-estar. O curioso do livro é logo no começo citar a possibilidade de uma pandemia gripal como o medo eminente. Já no caso atual, uma década após a publicação original deste livro, estamos no meio da pandemia causada pelo novo coronavírus. Segundo o autor, deixamos de viver na era viral, por outro lado uma infecção mundial poderia comprometer toda a sociedade, dado a mudança de comportamento a ponto de inviabilizar a organização de uma defesa imunológica. E não poderia ser mais verdadeiro.

Enfrentamos a crise do coronavírus por mais de um ano e vemos o quanto falhamos em impedir o avanço da doença. Sem o plano de gerenciamento federal e o improviso defasado de cada governo estadual, perdemos mais de duzentas mil vidas enquanto os políticos perdem tempo em culpar o outro e promover a si, enquanto brigamos entre familiares e amigos sobre a importância de usar a máscara. Isso falando apenas do Brasil, muitos outros países falharam em lidar à sua maneira. E é possível analisar porque a sociedade permitiu esses fracassos na prevenção da covid-19 por meio do próprio livro Sociedade do Cansaço, por meio das críticas pontuais presentes nos ensaios a relacionar as situações vividas ao longo deste último ano.

A falta da necessidade do outro

O que faz o representante de toda a população declarar a imprensa que pouco importa ― “e daí?” ― o número de mortes em crescimento, e isso desde o começo da pandemia? O sujeito atingiu a conquista de poucos, foi eleito o presidente da república, por isso já se sente realizado. Ao cumprir o objetivo pessoal, falta estímulos para olhar a necessidade do outro, de cada família a perder um ente durante a pandemia.

Desde antes da crise sanitária, já repudiava parcelas minoritárias da sociedade, essas irrelevantes a ele, pelo contrário, o ato de as rejeitar o favorecia em manter a posição privilegiada. Fica exausto sob o foco de manter o privilégio, e com isso se isola até do partido que o elegeu. Todos os ataques e indiretas a adversários políticos é o sinal de cansaço, mas não cansado deles; ele é o pivô do desgaste. Byung-Chul comenta sobre o excesso de positividade, há tanto em si que o deixa saturado, esquece do problema alheio ― apesar deste “alheio” ser a população, portanto seria o dever dele de atender ― por estar ocupado demais consigo.

Partindo do presidente, há toda a cadeia eleitoral dele e até a de outros segmentos partidários agirem por conta própria em detrimento do bem comum. Em suma, a sociedade deixou de ser disciplinar. No lugar de obedecer ao responsável, seja o patrão ou o estado, os indivíduos desta sociedade seguem os objetivos impostos por si, em busca de alcançar o que acredita ser ideal na sua vida. Assim estimula o contraste da necessidade da saúde pública em conter a infecção do novo coronavírus, o que de fato a pessoa acredita saber da doença e no quanto subestima as medidas de controle no intuito de manter os objetivos pessoais em prioridade.

Isolado em seu desempenho

Agora é a vez de falar de as pessoas insistentes em trabalhar nas áreas não essenciais mesmo durante a quarentena. Um assunto delicado, impossível julgar a todos a trabalharem de qualquer jeito, mesmo burlando a fiscalização por haver muitos brasileiros carentes de renda. Precisam garantir o sustento da família quando nem têm condições de implantar meios seguros de trabalhar, como vender apenas por delivery ou trabalhar de home office. Por isso as críticas a seguir servem a quem tinha condições de trabalhar de forma segura ou garantir isso aos seus funcionários, já esses tiveram de adaptar conforme a demanda.

Na verdade, nem é preciso de o superior cobrar do funcionário, ele já o faz por questão de desempenho, do esforço em atingir as próprias ambições. O funcionário quer garantir a melhoria de vida a si e sua família, tem motivos pessoais o suficiente a entregar o melhor no trabalho em troca de ascender na carreira, às vezes a insegurança de perder o emprego no mercado de trabalho concorrido já é motivo o suficiente. Portanto tem de trabalhar independente da condição, assim ele arrisca no meio da pandemia, sem necessidade de ouvir uma reprimenda do patrão. Já quanto as recomendações dos profissionais de saúde, cientistas ou mídia especializada, na prática afastam os objetivos do indivíduo já insubordinado, portanto nem quando o governo impõe restrições a conter a disseminação do vírus motiva participar dessas medidas de controle, pois ele está centrado no desempenho pessoal a garantir o sustento da família.

Esta insubordinação do funcionário oferece a compensação de entregar resultados melhores e ágeis no trabalho, por isso os superiores até incentivam tal prática, tira a responsabilidade deles de cobrar o funcionário, pois ele mesmo se encarrega da pressão. A consequência é um fator já presente antes da pandemia, a ponto de Sociedade do Cansaço já citar, e agora os noticiários mostram cada vez mais trabalhadores afetados: as crises de burnout, o sobrecarregamento capaz de esgotar todo indivíduo. É questão de tempo de tornar os indivíduos de desempenho em fracassados, e a pandemia diminui esse tempo.

Virtualização = descaracterização

O modelo de negócio das redes sociais garantiu a alta de lucros na pandemia, afinal os usuários acessaram por mais vezes durante o isolamento social. No ano passado também teve o lançamento do documentário O Dilema das Redes Sociais ― comentado neste outro post ―, que escancara a manipulação dos usuários por meio dos dados e as consequências geradas pelo conteúdo extremista fácil de disseminar pelo sistema.

A questão do desempenho pessoal penetra até o mundo virtual, ainda mais pelo sentido quantitativo. O número de amigos/seguidores alimenta o ego individual, além de proporcionar a demanda de atender a esses usuários conectados, obrigando ao indivíduo abrir mão do próprio caráter. Adapta o comportamento no objetivo de manter tal número em crescimento, flexibiliza a si em prol da eficiência comunicativa. Jaron Lanier comentou uma experiência dele ao tentar atender a demanda do público ― isso já bem antes de todo o alvoroço das redes sociais ―, começou a elaborar textos que ele discordava ou proporcionava discórdia entre os leitores, assim atraía comentários e visitas ao site, índices quantitativos de bom desempenho, sob o custo de o prejudicar como pessoa.

Além dos problemas decorridos da interação virtual, há o do sistema de processamento computacional. A atividade humana está moldada em desempenho, já os computadores são criados sob esse pretexto exclusivo. O sistema engole dados incessantemente, então processa essas informações massivas em tarefas difíceis de um humano acompanhar. Sob certo aspecto, o computador chega a ser burro, incapaz de hesitar e refletir sobre as consequências desse processamento.

O modo de vida humano é incompatível com a rotina de processamento do computador, mesmo assim acompanhamos nossas tarefas a partir do desempenho dele. Domina as pessoas pelo excesso de informações estimuladas pelo acesso instantâneo ― gera recompensa em tão pouco esforço ― que impulsionam reações, seja de admiração ou repúdio, este último mais presente. As informações geradas através da virtualização criam uma camada entre o indivíduo e a realidade, molda noções individualizadas do mesmo fato, pois sistema da rede social personaliza a transmissão de conteúdo de cada usuário. As pessoas comunicam a partir dessas experiências personalizadas e muitas vezes se desentendem sem perceber, por isso muitos ambientes virtuais estão infectados pela polarização a refletir ações intolerantes no mundo real.

Desempenho molda a vida

Byung-Chul criticou a falta de transcendência na Sociedade do Cansaço, pois o estimulo do desempenho reduz a vivência pela vida em si, prolongada a qualquer custo, sem necessariamente proporcionar equilíbrio a ela. Ele diz de a sociedade endeusar a saúde, e por consequência, tornar esta necessidade a uma entidade de crença na verdade nos distancia. Em vez de tornar as pessoas condizentes à situação da população nesta crise de saúde pública, elas buscam maneiras de se provar saudáveis diante de todos para assim conquistar novas oportunidades.

Na prática virtualizada, parte da sociedade empenha a maneira de viver em conforto no meio da pandemia ao invés de sobreviver a ela. Já a realidade está comprometida com o número de infecções e mortes em constante crescimento e pelo negacionismo perante a vacina dada pela insubordinação a órgãos repletos de profissionais competentes, pois entregam resultados incompatíveis ao empenho esperado por esta parcela da população. A Sociedade do Cansaço não apresenta soluções, nem eu tenho a qualificação de a fornecer, só posso colaborar através de um palpite passível de discussão. A sociedade é composta por indivíduos, portanto cada um precisa fazer sua parte, buscar discernimento alheio ao desempenho e colaborar pela vida ao próximo indivíduo, pois de um em um, chega a todos.

Livros comentados

Capa do livro Sociedade do CansaçoAutor: Byung-Chul Han
Tradutor: Enio Paulo Giachini
Publicação original em: 2010
Edição: 2019
Editora: Vozes
Gêneros: ensaio / não ficção
Quantidade de Páginas: 128

Compre o livro

 

 

 

 

 

 

Capa de Dez Argumentos para Você Deletar Agora suas Redes SociaisAutor: Jaron Lanier
Ano de Publicação: 2018
Editora: Intrínseca
Edição: 2018
Gênero: Não-ficção
Quantidade de Páginas: 190

Compre o livro