XP Literário

O Trabalho Não Precisa Ser uma Loucura

Se não acompanha por si, pelo menos conhece alguém a estampar frases motivacionais de supostos vencedores na carreira profissional por meio de esforço integral. Trabalhe enquanto eles sonham, brincam, reclamam ou algo do tipo. Na prática trabalhe também mesmo quando a família precisa de você, ignore as recomendações médicas, somam as dores musculares e de cabeça sendo parte do empenho, fracasse pela exaustão minar toda a criatividade e foco, ou porque “deixou de se esforçar o suficiente”. Buscar outro ponto de vista é diferente de fugir do trabalho ou seguir pelo caminho mais fácil e sem resultado, pelo contrário, é aliar a eficiência com o bem-estar familiar e empresarial de modo a manter a rotina produtiva.

O Trabalho Não Precisa ser uma Loucura elenca exemplos do quanto a cultura empreendedora de trabalho árduo prejudica o ambiente corporativo e quais medidas funcionam na empresa administrada pelos autores Jason Fried e David Heinemeier Hansson. Livro foi publicado em 2020 e trazido ao Brasil no mesmo ano pela editora Harper Collins sob a tradução de Daniel Austie.

“Para muitos, a loucura do trabalho acabou se tornando algo normal”

Sempre direto ao assunto tratado no capítulo correspondente, o livro proporciona leitura rápida e fácil de compreender. Segue a dinâmica de criticar a postura empreendedora contrariada pelos autores, em seguida contrastam por meio de exemplos tirados na experiência da própria empresa. Também lavam a roupa suja e cita os erros do passado, de atingir objetivos sem receber o resultado esperado, ou perceberam da necessidade ser na verdade outra, assim sobreviveram no mercado há mais de quinze anos, mesmo seguindo paradigma próprios e divergentes dos aceitáveis por outras empresas.

O conteúdo é limitado a experiências dos autores na empresa deles, salvo citações de outros profissionais de diferentes ramos com exemplos de rotina equilibrada no fim de certos capítulos e a menção de experiências pontuais de outras pessoas ― de fontes listadas na seção Bibliografia. Isso prejudica por deixar de abranger as discussões por meio de outras fontes, sejam essas favoráveis ou contrárias aos ideais dos autores, enquanto contribuiriam numa discussão justa. Na prática pode servir para reafirmar a quem já reflete da rotina de trabalho estar desgastante. Esta sugestão comprometeria a fluidez da assimilação em troca de estimular o leitor a refletir mais quanto as considerações elencadas. As dicas funcionam para os autores, e eles mesmos afirmam em determinado momento quanto a soluções de certa empresa nem sempre corresponderem a de outras, caberia o leitor a buscar a maneira por si, e nisso o livro pouco contribui.

Tratando de os autores citarem soluções e depois contradizerem de essas falharem em corresponder à realidade do leitor, há descuidos em outras menções. Não chega a contradizer, mas certas escolhas de palavras provocam desentendimentos. Um exemplo é a afirmação do quanto as metas sobrecarregam os funcionários e a direção da empresa sem necessidade, já nos capítulos posteriores continuam a falar de metas, embora com outro significado, atrapalha a compreensão por usar a mesma palavra.

“Não dá para fixar um prazo e depois adicionar mais trabalho. Isso não é justo”

O Trabalho Não Precisa Ser uma Loucura atrairá os leitores pelo título entregar a esperança de a sobrecarga na rotina profissional não corresponder ao resultado de crescimento. Os exemplos favorecem até mesmo a produtividade e a rentabilidade da empresa junto ao bem-estar dos funcionários, longe de serem desculpas ditas por preguiçosos, interessados em conseguir mais ao fazer menos. Por outro lado, as dicas são específicas das experiências dos autores, podendo ser inviáveis a demais empresas. Colaboraria mais se baseasse o conteúdo através de discussões de argumentos defendidos pela cultura do empreendedorismo através de exemplos além dos aplicados pelos autores.

“A única maneira de trabalhar mais é ter menos trabalho”

Capa de O Trabalho Não Precisa Ser uma LoucuraAutores: David Heinemeier Hansson e Jason Fried
Tradutor: Daniel Austie
Ano de Publicação: 2020
Editora: Harper Collins
Gênero: Não Ficção / desenvolvimento pessoal / empreendedorismo
Quantidade de Páginas: 240

Confira o livro

A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (editora Wish)

As narrativas sobre lendas locais sobrevivem não por terem apenas as aparições sombrias, mas por parecerem reais. Antes de contar sobre os monstros, elas contam sobre nós mesmos, o povo do lugar ou das semelhanças presentes nas demais populações. Gerações as transmitem em conversas, e certos autores a transcrevem ou aproveitam a lenda e traçam uma narrativa autoral. Washington Irving usou das aparições e contextos históricos ao escrever suas histórias no século XIX, e a editora Wish reuniu quatro contos do autor, entre eles A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, analisados um por um a seguir:

A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça

Os habitantes do Vale Adormecido ― Sleepy Hollow ― vivem em paz, apesar das lendas insistentes a sair pelas bocas da população. Ali o jovem Ichabod Crane possui uma escola e dá aulas às crianças do lugar. Bem letrado, atrai atenção por onde passa, apesar de ele almejar apenas a herdeira de Baltus Van Tassel, pois além de formosa, teria a vida garantida quando recebesse a herança. O único problema é a rivalidade de Brom Bones, o pretendente mais provável dela, de força tão inescrupulosa quanto as atitudes. E toda essa história narrada em torno de Ichabod menciona vez ou outra a lenda do cavaleiro sem cabeça, conhecido como o soldado hessiano ― alemão ― a perder a cabeça com o tiro de uma bola de canhão, e desde então cavalga sem ter essa parte do corpo sobre os ombros.

“Toda a vizinhança é repleta de histórias locais, lugares assombrados e superstições obscuras”

O título original em inglês, The Legend of Sleepy Hollow, corresponde melhor ao andamento da trama, a descrever os aspectos do Vale Adormecido, prosseguindo assim mesmo ao focar na perspectiva de Ichabod, por citar aspectos do Vale interessantes a este personagem. Apesar disso o título em português direciona o tópico da história ao ser sobrenatural e também acerta, afinal a narrativa aproveita cada oportunidade de o citar, sem falar da aparição é o ponto forte da trama, transforma a história do avesso, deixando os últimos parágrafos tensos.

Além da narrativa focada no personagem e na ambientação de terror, o texto traz elementos folclóricos no sentido de os contos serem difundidos pelas próprias pessoas. A ambientação estadunidense do Vale sofre a influência da família holandesa local, sem falar do cavaleiro sem cabeça ter a origem germânica, tornando o sobrenatural europeu realista nesse contexto. Apesar de poupar nos travessões, as vozes dos moradores ecoam nos parágrafos, contando as diferentes versões do que sabe ou desconfia entorno da lenda.

Rip Van Winkle

Rip Van Winkle é sujeito de capacidades humildes, aquém da exigência de sua esposa, por isso sofre por antecedência cada reprimenda da mulher. Entre as tentativas de adiar a bronca dela, sai pela floresta na companhia do cachorro Wolf e uma espingarda. Da exaustão desta atividade vai à estalagem, onde encontra pessoas de vestes estranhas. Depois de desentender com elas, adormece. Ao acordar, perde a companhia do cão de estimação, a espingarda em mãos fica toda enferrujada. Ele está na mesma floresta onde foi caçar, perambula pelo vale onde mora de mesma paisagem, exceto de tudo ao redor ser diferente.

“[…] seus erros e tolices são lembrados ‘com mais tristeza que raiva’”

Pela narrativa dedicada ao ponto de vista de Rip, a história explora essa limitação ao dedicar as reações do personagem conforme descobre o que acontece consigo diante dos demais personagens. A descrição mescla a ambientação daquele período histórico com o desconhecido por Rip, facilitando a compreensão do leitor a reconhecer mesmo em poucos detalhes no que aconteceu em todo o país enquanto Rip ficou ausente durante o sono.

O Noivo Espectral

O barão mal tinha a riqueza característica da família em tempos remotos, mesmo assim mantém os velhos costumes. Alimenta rivalidades entre outras famílias por desavenças tidas no tempo de seu tataravô. Possui apenas uma filha, esta que ele escolhe casar ao tratar com o pai do noivo, sem sequer conhecer o rapaz, a filha muito menos. Após tudo combinado, o barão prepara o banquete de boas-vindas na noite anterior ao do casamento, momento quando os noivos enfim se conheceriam, não fosse o noivo cruzar caminho contra ladrões e perder a vida, apenas seu soldado sobrevive, encarregado de levar a triste notícia à família do barão. Ao retomar a história do banquete, vemos o desfecho acontecer de outra maneira.

“[…] pois a linguagem do amor nunca é ruidosa”

Sem detalhar muito, esta história é realista, só usa o elemento fantástico ao demonstrar o quanto as concepções humanas estão suscetíveis, podendo enganar até o leitor ciente dos dois lados da história. Este conto é outro exemplo de qualidade do autor em explorar os costumes sociais da sociedade europeia ao desenvolver a narrativa, sem causar monotonia, pois até os antigos valores podem ser repensados ao viver no presente, ainda mais quando situações extraordinárias acontecem. Caso aceite um pequeno spoiler ― senão apenas pule o resto deste parágrafo ―, a história tem desfecho positivo e até moral, por outro lado deixa subjetivo a situação do noivo escolhido pelo barão.

O Diabo e Tom Walker

Tom Walker detém a avareza comparável apenas ao da própria esposa. O casal rivaliza consigo por cada cônjuge pregar peças e tirar vantagem do outro. Um personagem desse tipo está fadado a encontrar o diabo em pessoa, e assim acontece. Tom Walker conta do encontro à esposa, e esta tenta tirar vantagem da criatura, dias passam e ela jamais retorna, então Tom Walker também tenta a sorte.

“Rezava alta e vigorosamente, como se o céu tivesse que ser tomado à força e aos berros”

Por haver tantas histórias do tipo nesses dois séculos após da publicação deste conto, a trama segue previsível, nem por isso a torna dispensável. Até os personagens do conto sabem o porquê Tom Walker tem esta consequência, portanto ficam conformados. Ao contrário do conto anterior, a situação sobrenatural causa um resultado ordinário. A descrição densa ambienta mesmo os leitores atuais aos costumes da época, mostra particularidades em torno da figura conhecida por todos, de aspectos particulares aos do local.

Capa de A Lenda do Cavaleiro Sem CabeçaAutor: Washingont Irving
Tradutora: Camila Fernandes
Publicações originais: entre os anos 1819 e 1824
Editora: Wish
Edição: 2020
Gêneros: fantasia sombria / terror / ficção folclórica
Quantidade de Páginas: 192

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Como Sobreviver ao Dilema das Redes Sociais (e da Google)

Netflix lançou O Dilema das Redes Sociais em setembro, no mês anterior ao desta postagem, e desde então várias matérias e, é claro, postagens nas próprias redes enaltecem os argumentos apresentados pelos entrevistados, afinal muitas das situações já eram conhecidas, visíveis a quem estuda ou interage neste meio de maneira profissional. O documentário é eficiente por dar voz aos profissionais responsáveis pelas ferramentas viciantes, arrependidos de participar delas, além de demonstrar uma família prejudicada do dilema por meio de encenações dramáticas.
Eu já conhecia boa parte das características mostradas no documentário, confesso de ter falhado em reconhecer algumas delas serem parte do problema a gerar polarização e distração, de entender o quanto eu também fui afetado. Depois de assistir, comprei o livro Dez Argumentos Para Você Deletar Agora suas Redes Sociais, cujo autor Jaron Lanier também aparece no documentário, e ao ler aprofundei mais do quanto somos manipuláveis e baratos ao fornecer nossos dados e com eles as nossas competências às plataformas digitais. Contribuímos a tornar pessoas obsoletas, mesmo as de formação acadêmica.
Capa de Dez Argumentos para Você Deletar Agora suas Redes Sociais

Deletar ou não deletar, eis a questão!

Somos testemunhas do quanto a polarização incentivada nas redes sociais por meio do mecanismo de engajamento favoreceu inúmeros incompetentes a assumir cargos no governo público e até mesmo no meio privado, enquanto a população fica mais acomodada, sem iniciativa de buscar informação. Depois de tudo isso, a vontade imediata foi de largar as redes sociais, criar uma nova conta de e-mail e abandonar o Gmail. Percebi a ansiedade, então permiti tempo para refletir quanto a alternativas depois de lidar com tudo isso. Apesar de ainda não ter todas as respostas, apresento neste texto os primeiros passos a tornar o uso da rede mais saudável na minha concepção, tanto na perspectiva do usuário, quanto na produção de conteúdo.

O mal do Engajamento

Conforme vimos no documentário e Jaron faz questão de mostrar em seu livro, os programadores das plataformas digitais são gente feito nós, há nenhum vilão cartunesco por trás dos servidores do Facebook ou Google planejando manipular pessoas a brigarem entre si, por vezes levando a discussão virtual a agressões reais. Mesmo sem esta má intenção, na prática ocorre graças ao modelo de negócio que sustenta financeiramente essas empresas.
O Suposto hacker - O Dilema das Redes Sociais

A máscara está caindo, e por trás há só mais outro rosto humano

Vamos chamar toda campanha publicitária ou partidária existente nas redes sociais e páginas indexadas na SEO ― Search Engine Optimization, o mecanismo de classificação dos resultados mais atraentes em sites como da Google ― de produto. Este produto torna rentável ao proprietário quando atrai muitos usuários ativos nele, e serem ativos significam ir além de seguir e curtir a publicação deste produto. É comentar, compartilhar na própria timeline e dali gerar mais interações. Respostas de comentários também são ótimos índices de sucesso neste meio, isso segundo as métricas da postagem, pois ao conferir o que de fato escrevem, é bem provável encontrarmos discussões ofensivas.
Um lançamento de game exclusivo de certa plataforma gera críticas dos fãs da plataforma concorrente. A estreia de filme ou série ter protagonista homossexual ― às vezes basta ser feminina e hétero ― atrai críticas de gente alheia ao público-alvo. Nem preciso comentar quando a postagem é sobre política. Todos os participantes das discussões favorecem essas publicações, e ainda puxam consigo alguns extremistas que se destacam, atraem seguidores e viram outro “produtor de conteúdo”, abusam desta estratégia ao promover nessa interação online enquanto as empresas tentam promover o produto real.
Entre o dono do produto e os produtores de conteúdo competentes ou desses citados no parágrafo anterior a conseguirem atenção apenas por xingamentos, há inúmeros usuários sustentando o engajamento deles sem terem consciência disso por acreditarem contribuir com a sua opinião ou militar pela causa. Eles desesperam e caem na armadilha de tumultuar a rede, alguns tornam mais desses produtores de conteúdo vazio, outros apenas repetem informações prováveis de serem equivocadas. Ninguém tem de provar nada a ninguém, no entanto todos deveriam se informar melhor. Promova qualidade a si em vez de contribuir no engajamento alheio sem ganhar por isso.
Polarização - O Dilema das Redes Sociais

Polarização boa, é polarização inexistente

Aos produtores de conteúdo, é bom considerar remover a seção de comentários do seu site e dar menos atenção a opiniões desperdiçadas na timeline do perfil social. Vocês podem argumentar que assim perderão feedbacks construtivos. Têm razão, ainda há pessoas online dotadas da melhor das intenções, e por elas seria bom informar um endereço de e-mail para o qual podem te comunicar sobre o conteúdo. Dará mais trabalho transmitir o feedback, e isto favorece os interessados a fazerem o esforço de conversar em vez de tocar na barra de comentário, escrever palavras feias e enviar. Ainda haverá usuários a mandarem e-mail ofensivo, assim basta classificar como spam e focar nos interessados em contribuir. Aliás, caso tenha gostado deste texto ou queira contribuir com complementos ou críticas, mande mensagem no e-mail araujo.die93@gmail.com — caso eu saia do Gmail, mudarei o endereço aqui.

Esqueça a quantidade

Algoritmos das plataformas digitais agem conforme os dados recebidos, e antes de classificar esses dados e formular informações, os dados são números. Precisou averiguar diversos usuários com publicações de fotos em tons azuis, escuros ou escalas de cinza, para o sistema supor desses serem suscetíveis a depressão. Antes de identificar os jovens capazes de agredir a si mesmos, foi preciso analisar o padrão de comportamento online dos muitos que já o fizeram, assim experimentaram adequações de, segundo os desenvolvedores, prevenirem novos casos. É uma afirmação enganosa, deixa de ser prevenção quando o estrago está evidente, a iniciativa é na verdade a tentativa de solução a parar novos incidentes.
Os algoritmos de SEO também consideram os números, a quantidade de visitas de determinada página classifica a eficiência dela, depois cruza outros índices, os que classificam usuários nos diferentes tipos de perfis, por fim indica as páginas bem sucedidas a quem é interessado no conteúdo delas. Personaliza o uso online onde o usuário navega, mergulha e afunda em uma bolha sem saber. Depois de conhecermos inúmeros adeptos a teoria da Terra Plana graças a essa personalização de pesquisa online, pouco adianta responder que deixará os conteúdos do tipo sejam menos visíveis, o estrago já foi feito, os perfis transmitem as teorias defasadas entre si.
SEO - O Dilema das Redes Sociais

Há tantas características de SEO, que perde espaço das características de bom conteúdo

O mesmo pode acontecer no seu projeto ao considerar os objetivos na quantidade de acessos ou de público. Jaron desabafou de quando trabalhou como redator no site HuffPost e tentou atingir o público cada vez maior. Acabou por publicar conteúdo em que nem acreditava, só porque os visitantes online gostariam de ler e assim o aproximava da meta. Também começou a escrever sobre assuntos revoltantes, pois provocava os leitores a alimentarem o engajamento.
Outra estratégia bem comum, inclusive visível a muitos portais conhecidos da internet, é de exagerar na quantidade de matérias diárias, assim o usuário pode navegar entre elas e prolongar o tempo de interação no site. Isto prejudica o bem-estar das pessoas por sobrecarregar o tempo gasto online, e afeta também a qualidade do conteúdo, pois deixou de focar nisso em prol da quantidade tanto de produtividade quanto de acessos. Uma hora o público perceberá a superficialidade da matéria, e no fim você perderá os números inconsciente do motivo.
Muitos canais da plataforma YouTube tentaram seguir as diretrizes do site em publicar vídeos com frequência semanal, muitos desses sobrecarregaram e desanimaram de trabalhar por lá, ficaram em hiato, migrou a outras plataformas ou desistiram da periodicidade de vídeos. Certos canais conseguiram manter essa rotina de publicação, já eu parei de os seguir, deixaram de ser atraentes, e hoje perdi o costume de frequentar o YouTube, só vejo o que de fato me interessa ou atenda uma curiosidade particular.
YouTube

Rosto todo desfigurado, mas desde que atenda aos algoritmos de recomendação…

Atingir a quantidade corresponde ao sucesso momentâneo, sob prazo de validade. Caso produza trabalho online, foque a longo prazo e na progressão pessoal. Esqueça a meta do milhão de seguidores, talvez no futuro você consiga mil capazes de sustentar a sua produção porque acreditam valer a pena dedicar o tempo contigo em vez de desperdiçar inúmeras matérias lidas equiparáveis a metade de uma útil.
Atualizo este blog toda segunda-feira, às vezes consigo dois conteúdos na semana e publico na quinta também, então você precisa visitar o meu site somente uma vez por semana ao acessar conteúdo novo. Acabei de sugerir para sabotar o ranking do meu site, abrir mão das minhas visualizações, mas a minha utilidade na internet é garantir no máximo dois conteúdos novos toda semana. Só acessaria o XP Literário além disso para pesquisar algum conteúdo antigo. Recuso a encher o blog com postagens ínfimas até capazes de tomar o tempo de navegação e favorecer os meus índices no Google Analytics. Eu uso este espaço virtual a compartilhar o pouco que aprendo, longe de conquistar um sucesso superficial.

A timeline é infinita, nosso tempo não

Continuando no raciocínio dos sites prenderem a atenção, lembremos dos feeds das redes sociais. Deslizamos a tela dos smartphones e sempre encontramos postagens novas, com propagandas no meio. O nosso esforço é pequeno, em troca recebemos atualizações sobre a situação de nossos amigos online, as novidades dos noticiários, as conquistas daquele influenciador contente em compartilhar contigo um produto da marca obtido de graça ― ou foi pago para promover ― graças a você, seguidor fiel. Tanta gente tendo sucesso virtual, e você apenas deslizando o dedo no celular ou girando a roda do mouse. Começa a sentir apreensão, lembra apenas os fracassos na própria vida. O pior é a probabilidade dos supostos vencedores que você vê na tela também fazerem o mesmo é grande. As postagens infinitas consomem o tempo e diminuem a autoestima, a única vantagem dela é tornar viciante, e isso beneficia apenas a plataforma.
Tristeza na timeline - O Dilema das Redes Sociais

Tristeza na timeline

A solução é dada por Jaron no título do próprio livro: saia das redes agora. Já eu proponho uma alternativa, evite o feed infinito e assuma o controle. Escolha quais canais e pessoas acompanhar naquele momento e vá direto no perfil deles, assim olhará publicações antigas, já vistas da respectiva timeline, e pode se dar por satisfeito. Evite os perfis viciados na quantidade de postagens e lhe tomam tempo. Enquanto trafegar assim, lembre de evitar as seções de comentários, algumas podem estar contaminadas de polarização; em vez de contribuir no engajamento, favoreça o contato com a pessoa ou produtor e mande uma mensagem privada.

Seja mais ativo, e dê mais valor aos seus dados

Já reparou em quanto há novas funcionalidades que entregam resultados em vez de garantir a você ir atrás? A barra de pesquisa do Google é a mesma, apesar de ter um quadro no lado direito com as informações mais prováveis de os usuários quererem, portanto podem parar ali mesmo. O Google Tradutor converte a expressão no outro idioma conforme você digita, mas isso te ajuda a entender mais sobre esse idioma? No máximo tem a sugestão de outras palavras correspondentes a um resultado melhor as quais você irá selecionar e ensinar o sistema qual é a melhor opção de tradução, e você ainda nem entende o porquê.

Google

Nem todo estudo precisa começar dali

Os donos das plataformas digitais querem influenciar o consumo. Às vezes acertam e contribuem em entregar algo marcante, seja o curso ideal a desenvolver novas habilidades, seja música ou livro novo capaz de te distrair. Só evite de dar toda a confiança a esses algoritmos e descubra outras possibilidades por si ou pelas indicações dos amigos, então vá atrás você mesmo, depois nem precisa publicar a respeito. Faça caminhada, tomando cuidado a evitar infecção por coronavírus, ou caso faça parte do grupo de risco, planeje esta atividade quando a pandemia acabar. Veja a paisagem sem ter de postar foto no Instagram. Anote ideias valiosas para a vida, não um tweet. Quer empreender, então veja como pode ser feito no mundo real antes de promover no virtual.
Jaron fala em largar a rede social para forçar as empresas mudarem o plano de negócio. Minha sugestão ― talvez ineficiente pela minha inocência ou falta de referências, qualquer coisa manda um e-mail ― é tornar cada usuário mais valioso. Depende de cada um de nós. Precisamos ser mais exigentes e oferecer menos do nosso tempo online, valorizar o conteúdo em vez do sucesso da pessoa revertido em angústia a nós por não atingirmos o mesmo patamar. Parando de encarar os números, podemos obter mais resultados com menos seguidores, sendo esses os exigentes a valorizarem o nosso trabalho.

Referências

Dez Argumentos para Você Deletar Agora suas Redes Sociais
Autor: Jaron Lanier
Ano de Publicação: 2018
Editora: Intrínseca
Edição: 2018
Gênero: Não-ficção
Quantidade de Páginas: 190
O Dilema das Redes Sociais
Diretor: Jeff Orlowski
Estreia: 2020
Plataforma: Netflix
Gênero: Documentário
Duração: 89 minutos
Como o Facebook manipula os seus sentimentos
Como o YouTube impulsiona teorias conspiratórias sobre Terra plana
Does quitting social media make you happier?  Yes,  say young people doing it (reportagem em inglês)
Center for Humane Techonology — organização mantida por Tristan Harris, o principal entrevistado no documentário da Netflix, o site está cheio de conteúdo (também em inglês)

Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais

O título diz “agora”, mas pelo menos leia o livro antes de tirar as conclusões. Será melhor assim, a seguir as recomendações do autor, ou pelo menos recusar parte delas ― talvez até todas ― conscientes dos argumentos e da realidade apreendida após conferir a perspectiva de alguém atuante na área, além de embasar o raciocínio em reportagens citadas nos rodapés ao longo do livro. Jaron Lanier é o responsável por elaborar Dez Argumentos para Você Deletar Agora suas Redes Sociais e publicar num livro em 2018, trazido no mesmo ano pela editora Intrínseca, que curiosamente divulgou o livro através das redes sociais.

“Se você não fizer parte da solução, não haverá solução”

Os dez argumentos correspondem a capítulos sobre os tópicos elencados de forma progressiva, pois os capítulos anteriores servem de base aos próximos. Atuante na área de computação, Jaron Lanier aponta muitos exemplos pessoais no decorrer do livro, inclusive assume vender uma das próprias Startups a empresas as quais critica. O problema de Jaron está na metodologia de negócio implantada por essas empresas, pois sustentam a si ao custo de reduzir ou desvalorizar as qualidades dos usuários que a acessam de forma gratuita. Sem limitar apenas ao ponto de vista formado ao longo da carreira dele, o autor cita mais de uma centena de fontes, reportagens exemplares de mostrar os problemas vistos nos últimos anos por meio das redes sociais, não só elas na verdade, e sim por toda empresa capaz de assimilar a interação dos usuários nos seus serviços gratuitos e a partir disso personalizar novos conteúdos a ponto de manipular o comportamento deles.

“Não existe nenhum gênio maligno sentado em um cubículo de uma empresa de mídia social”

Conforme dito no parágrafo anterior, a melhor maneira de compreender o conteúdo do livro é o aproveitando de forma linear, evite pular a determinado argumento por achar o título dele interessante. Falando no título dos argumentos, a primeira vista eles soam sensacionalistas, e permanecem assim mesmo depois de conferir o conteúdo, afinal este discorre ao construir informações, mostrar as realidades provocadas pelo problema em foco e então desenvolve o argumento. Portanto se difere do apelo emocional enunciado no título, para um apelo racional direcionado ao leitor.

Ciente da perspectiva pertencente a ele, Jaron conhece o próprio limite de conhecimento e assume quando toca assuntos diferentes à experiência de vida dele, portanto o leitor deveria coletar outros materiais caso deseja entender melhor certos assuntos, enquanto Jaron foca nos problemas constatados pelas empresas manipuladoras. Tem a humildade de admitir desses serem os argumentos os quais domina, por fim incentiva os leitores pesquisarem os demais assuntos.

“A mídia social é tendenciosa, não para a esquerda nem para a direita, mas para baixo”

Ao elaborar motivos contrários às redes sociais, por vezes o autor cutuca tópicos passíveis de desencadear armadilhas de negar seu conteúdo a certas pessoas. Ao citar determinada figura pública, criticando diversas nuances de caráter mesmo quando consegue amarrar as características consequentes da rede social, tem o risco de revoltar leitores que admiram essa pessoa, invalidando os argumentos levantados só pela menção dela, independente da qualidade ou da realidade escancarada nas fontes ― conforme o próprio livro critica acontecer dentro das redes sociais. Na verdade isso pode acontecer por leitores influenciados pelo perfil virtual desta pessoa, então o livro não teria culpa, só poderia elencar argumentos sem citar o nome, estimular a todos tirarem as próprias conclusões, e assim poderia convencer até parte desses admiradores reconhecerem o problema causado.

Dez Argumentos para Você Deletar Agora suas Redes Sociais tem muito a oferecer e renderá uma matéria sobre como interagir no meio virtual sem ficar a mercê ― ou pelo menos diminuir ― da influência inconsciente proporcionada por empresas nada malignas, apenas dotadas de estratégias inconsequentes. Ao conferir todo o livro, poderá se dar a oportunidade de largar a interação passiva da rede social em troca de ir atrás do conteúdo útil.

“De início pode não parecer, mas sou uma pessoa otimista”

Capa de Dez Argumentos para Você Deletar Agora suas Redes SociaisAutor: Jaron Lanier
Ano de Publicação: 2018
Editora: Intrínseca
Edição: 2018
Gênero: Não-ficção
Quantidade de Páginas: 190

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Laços de Família (Contos Rotineiros de Clarice Lispector)

A resenha deste livro foi feita depois da segunda leitura, pois a primeira gerou nenhum impacto, quando o leitor adolescente buscava resultados espontâneos no final de cada conto, igual a personagem de O Búfalo. Dez anos depois, este leitor capta as entrelinhas do texto, conhece o fluxo de consciência, além de ler livros por prazer. Por descrever acontecimentos tão cotidianos, a autora consegue explorar significados peculiares no modo de escrever, ou revela o óbvio oculto pelas aparências. Laços de Família é uma coletânea de contos da Clarice Lispector, publicada pela primeira vez em 1960, já a edição lida nesta resenha foi a de 2007, da editora Rocco. Segue os comentários referentes a cada conto do livro:

Devaneio e embriaguez duma rapariga

É o conto da mulher dona de casa. O marido trabalha fora, os filhos estavam na casa da tia. A mulher transpira pensamentos por todos os parágrafos, tudo contado sob fluxo de consciência, mostra devaneio correspondente ao título do conto. Sempre voltada a ela, mesmo quando a cena retrata outras pessoas, apenas ela é a personagem, a mulher livre, de mérito conquistado, cujas qualidades atraem olhares. Então a ressaca lembra a realidade dela; retorna à rotina.

“[…] só Deus sabia: ela sabia muito bem que isso ainda não era nada”

Amor

Ana vivia dias seguros. Dona de família, a rotina correspondia ao ideal segundo a concepção dela, até encontrar um senhor cego no bonde, sorridente ao mascar chicles, e transforma a vida de Ana do avesso. A protagonista tinha certezas da própria convivência, e encarar essa nova realidade alheia a impressiona a ponto de preocupar. Seria certo ir atrás de conhecer algo novo? Seguindo ao diferente, ela perde o caminho de volta, e o desespero a consome.

“Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas”

Uma galinha

Uma galinha prestes a ser abatida foge do galinheiro da família. O dono vai atrás, e a perseguição surpreenderá a todos. A narrativa foca no animal do começo ao fim, demonstra as limitações de sua vida, e nem isso impede do extraordinário acontecer, para depois voltar ao normal e chocar o desfecho.

“Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã”

A imitação da rosa

Laura irá, junto do marido Armando, ao jantar com a Carlota e o marido, amigos do casal. Há tempos não os via ou jantava assim, mesmo Laura sem ter filhos. Ela ocupa a mente com a casa, segue o ritual de tomar leite, em seguida ela ficava calma, algo tão natural quanto ficar cansada no fim do dia. O leite a tranquila, já as rosas a perturba. Tão perfeitas de modo a proibir o direito de as ter. Pretende entregar à Carlota, ou quem sabe mantém consigo; o conto segue por este impasse da protagonista. Laura ocupa a cabeça no aguardo do marido, até descobrir algo capaz de ela resolver, apesar de haver nada, é apenas um exercício útil a encher a protagonista de significados.

“’Abandone-se, tente tudo suavemente, não se esforce por conseguir’”

Feliz aniversário

É a festa de oitenta e nove anos da aniversariante. Toda a família reunida nesta data especial, já a homenageada da festa permanece muda, até escancarar a verdade, o evento é compromisso ao invés de festa. Conforme narra a cena, demonstra a situação de cada membro desta família. Sob tantos anos sobrevividos, há dificuldade de encontrar motivos de ter alegria em alguém a permanecer sentada; aos filhos, netos e bisnetos interromperem um dia de vida a fazer companhia à senhora. Enfim, mostra a melancolia escancarada nessa data a fingir bem-estar familiar.

“Os músculos do rosto da aniversariante não a interpretavam mais”

O jantar

É sobre alguém observando outra pessoa comer, um sujeito intimidador pela própria existência. Melhor ler o conto por si e tirar as conclusões sobre quem é o sujeito e o narrador observador, tudo demonstrado nas entrelinhas, apesar da intenção na escrita ambígua. Todo o conto persiste em narrar este personagem comendo, foca nos detalhes, pois cada gesto dele desencadeia reações nas pessoas ao redor.

“Num dedo o anel de sua força”

A menor mulher do mundo

Marcel Petre é pesquisador francês. Dentre os humanos pequenos, pretende descobrir o menor dos menores. Assim segue pela África, até encontrar o objetivo: mulher negra, grávida, e a menor de todas as pessoas. A partir do retrato desta mulher, o conto segue numa questão nada agradável, mostra a reação dos espectadores de seu retrato, encaram-na feito espécie distinta, feito alguém sujeito a ser possuído, usufruído ao bel prazer; em suma, escancara o racismo sob desculpa desta mulher negra ser diferente. O conto também trata da visão dela diante do pesquisador francês, mostrando a visão limitada a sobreviver em contraste a alguém novo, estrangeiro.

“[…] obedecendo talvez à necessidade que às vezes a Natureza tem de exceder a si própria”

Preciosidade

É sobre uma adolescente na rotina de estudos. Vida solitária, ia até a escola sozinha, de ônibus, entre os demais passageiros, tem medo de ser vista, pois apesar de não se achar bonita, já está na idade. Muda de postura nas aulas, segura do mundo. Ao voltar para casa tem companhia somente da empregada. Vive enclausurada, mesmo assim sofre o que tanto teme, mudando assim a vida dela. A escrita é capaz de transmitir o medo da personagem em cada passagem correspondente, estendendo o terror ao leitor conforme acontece na garota.

“É que eles ‘sabiam’. E como também ela sabia, então o desconforto”

Os laços de família

Catarina acompanhava a mãe ir embora, e ao voltar no lar, leva o filho rua afora enquanto Antônio, o marido, aproveita a tarde de sábado que pertence a ele. E entre essas interações, mostra quais são os laços desta família, do patriarca engenheiro e esposa talvez cansada do apartamento todo arrumado, do filho nervoso sem fazerem nada por ele, e das provocações que tornam esta relação pacífica.

“’Quem casa um filho perde um filho, quem casa uma filha ganha mais um’”

Começos de uma fortuna

O maior problema de Artur é pedir o dinheiro aos pais. Tenta a manhã toda e falha, na escola há oportunidades de gastar dinheiro, até mesmo pegar emprestado, o problema é já estar devendo a outro colega de classe. Assim Artur enfrenta agora os dilemas que ele precisa preocupar quando estiver mais velho, apesar da idade já estar próxima. E nesta crise adolescente, mostra os pais lidando com o garoto entre críticas e oportunidades divergentes entre pai e mãe.

“Só que era inútil procurar em si a urgência de ontem”

Mistério em São Cristóvão

Toda a família da casa vai dormir, quando sai três moços mascarados da residência vizinha e encontram no jardim desta primeira casa os jacintos ideais a combinar com as fantasias deles. Ao tentarem pegar, chama a atenção de uma moça a berrar de susto contra eles a fugirem até a festa. O susto desperta todos na casa, apesar de este já ter passado, desencadeia emoções nesta família cheia de desconfiança, como se os membros desta vivessem mascarados. Os rapazes de fantasia somem faz tempo, e ainda assim a tensão na família permanece.

“Sem se dar conta, a família fitava a sala feliz, vigiando o raro instante de maio”

O crime do professor de matemática

Ele sobe até a colina, busca forças e fôlego ao tirar os óculos da face, só então ele age, tira o cachorro morto na mochila, o outro cachorro, não aquele, e começa a cavar. Aparenta ser um caso de agressão ao animal inocente, na verdade revela ser algo pior, pois este é o objetivo do protagonista sob pleno raciocínio lógico, lúcido, só que chocante ao leitor.

“Ele achava que o cão à superfície da terra não perderia a sensibilidade”

O búfalo

Desapontada no amor, ela decide ter ódio. Tenta buscar esse sentimento irracional no zoológico, só não o encontra. Explorando os animais de lá, o conto acusa a ansiedade humana em conquistar anseios imediatos, de procurar algo em seres ditos inferiores e encontrar só a própria fragilidade de si. Odeia por amar, e assim acaba amando o mundo todo.

“Ela mataria a nudez dos macacos”


Capa de Laços de FamíliaAutora: Clarice Lispector
Publicado pela primeira vez em: 1960
Edição: 2007
Editora: Rocco
Gênero: contos / ficção feminina
Quantidade de páginas: 135

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As Intermitências da Morte (José Saramago)

Esta é a história sobre a protagonista que estando ausente, fica presente como nunca. Propulsora de tragédias, mas sem ela tudo muda. O medo aparece junto às oportunidades de quem cria novas regras ao manter o lucro do trabalho, procurar motivos de manter o serviço quando deixa de ser necessário. A crise escancara os desfalques já existentes, as brechas expostas são flancos, oportunidades de outros grupos atingirem o mesmo tipo de privilégio. Tudo isso porque a morte decidiu ficar ausente. As Intermitências da Morte é o realismo mágico escrito por José Saramago, publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2005.

“No dia seguinte ninguém morreu”

Assim que acontece a virada do ano, ninguém mais morre. Mesmo os indivíduos em estado terminal, eles apenas permanecem em agonia. Fora os indivíduos, a sociedade de todo o país sofre as consequências da imortalidade populacional. O atendimento médico sobrecarrega dos internados apenas a acumular, ninguém falece para deixar os leitos vagos. Setores econômicos também sofrem as consequências, entre esses os serviços de funerária e seguros de vida. Religião também perde o sentido de existir sob a ausência da morte. Quase tudo temporário, claro, pois religião e setores econômicos têm os meios de adaptar, elaboram as novas condições possíveis de sustentar a si. Assim ocorre o “novo normal”.

“Ao lado de uns quantos que riem, sempre haverá outros que chorem”

A história já começa pelo acontecimento extraordinário e mostra as primeiras consequências notadas quando a morte deixa de acontecer, havendo outros problemas ainda a serem descobertos, mesmo os existentes desde sempre. Com o tempo surgem ideias a adaptar esta nova realidade, seguindo de discussões e outras consequências, outras brechas expostas da sociedade, essas por vezes sem prejuízo aos capazes de resolver, portanto permanecem presentes. Tudo porque a morte, esta identificada com m minúsculo mesmo, é personagem desta história, e do seu conflito mal resolvido, causa transtornos em todo o país. Sem comentar tanto sobre a apresentação desta personagem na trama, por acontecer em momento tardio no romance e, portanto, revelaria spoilers, quando acontece, dá a oportunidade de mudar tudo de novo, de assustar os demais personagens e surpreender os leitores.

Saramago também é conhecido pelo jeito peculiar de escrever, usando regras próprias ao compor o texto. Compila toda uma cena no mesmo parágrafo, o que pode entender as quebras de página como transição de capítulo. Por estar tudo no mesmo parágrafo, os diálogos também são transcritos de forma contínua, sem travessões, tudo é demarcado por vírgulas, e quando a próxima frase começa em letra maiúscula indica a nova fala de personagem. É fácil de assimilar este padrão, mesmo assim é preciso concentrar na leitura, senão fica perdido no texto de linha contínua e pelas conversas mescladas. São empecilhos temporários, basta acostumar e talvez voltar a ler frases anteriores caso se confunda, por outro lado esta forma de escrever traz vantagens além das aparentes dificuldades. Proporciona a leitura fluida, contínua por toda a cena, o diálogo fica dinâmico sem a transição entre a voz do narrador e a do personagem, por vezes elas mesclam no sentido proposto da frase, fornecendo essa nova perspectiva de escrita.

As Intermitências da Morte tem muito a falar da personagem morte em minúsculo e o impacto dela tanto na presença, quanto ausência. Toda a sociedade afetada é retratada feito unidade na narrativa de Saramago, cada parte desta retratada no pedaço correspondente do texto sem quebrar a linha em novo parágrafo enquanto tratar dela. O texto fisga a leitura, incentiva acompanhar a trama sem parar até descobrir o desfecho de tudo o que acontece.

“A morte conhece tudo a nosso respeito, e talvez por isso seja triste”

Capa de As Intermitências da Morte Autor: José Saramago
Ano de Publicação: 2005
Editora: Companhia das Letras
Gênero: realismo mágico
Quantidade de Páginas: 208

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O Clube dos Suicidas (Setembro Amarelo)

Na busca de títulos relacionados ao suicídio no intuito de publicar ao longo do Setembro Amarelo, este último achado também é um dos primeiros livros policiais já escritos. Vindo do autor exemplar capaz de entregar história de pirata a inspirar tropos e clichês em novas narrativas até hoje, além do caso obsessivo pela dualidade a ponto de inspirar monstruosidades feito o Hulk; este outro trabalho de Robert Louis Stevenson demonstra maneiras de impor tensão na narrativa, conduzir mistérios revelados nos melhores momentos, e ainda serve de exemplo de abordagem de suicídio na ficção. O Clube dos Suicidas foi publicado pela primeira vez em 1878, com edição digital em 2012 feita pela editora Rocco sob a tradução de Eliana Sabino.

“Fale com franqueza com quem pode ajudá-lo”

O Príncipe da Boêmia de nome Florizel gosta de andar disfarçado pelas ruas de Londres junto ao general Geraldine, quando em certa noite os dois encontram alguém inusitado: um rapaz distribuía tortas de creme pelo bar, de graça, e caso alguém recusasse a oferta, ele mesmo comia. O Príncipe acompanhou este rapaz ao longo desta tarefa peculiar até conseguir satisfazer a curiosidade do porquê ele fazer isso. A resposta é a de o rapaz perder a razão de viver, a intenção era fazer este último gesto antes de participar d’O Clube dos Suicidas. A existência de tal clube intriga Florizel. Ele resolve participar, conhecer e desmantelar esta organização.

“A existência de um homem é fácil de destruir e tão poderosa de ser vivida!”

Composto por três histórias curtas, cada uma alterna o ponto de vista sobre outro personagem, apesar de Florizel estar presente em todas e protagonizar este episódio contra O Clube. A princípio as histórias soam distintas, pois começam a narrar a vida comum do personagem, só parágrafos mais tarde entrelaça à trama principal através do ponto de virada surpreendente. Enquanto as duas últimas prezam pela surpresa ao leitor de trabalhar no mistério enquanto as dicas existem diante do texto, a primeira história trabalha muito bem a tensão depois de apresentar O Clube dos Suicidas, revela as regras do jogo aos poucos, permite assimilar tudo com a leitura antes de vir o jogo em si. Por ter os elementos esclarecidos, a narrativa fica pronta a favorecer o suspense, e cada linha a estender o resultado daquela cena contribui na tensão cada vez mais elevada. O perigo aos personagens envolvidos fica claro ao longo da descrição, provoca receio quanto a se eles serão espertos o bastante a sobreviverem, e o enredo explora a inteligência dos envolvidos ao determinar o vitorioso.

Conforme dito no começo da resenha, sob o foco de analisar o suicídio representado nas ficções durante o mês de Setembro Amarelo, é impressionante de ver a condução do assunto neste livro. Apenas a primeira história aborda personagens sob tendências suicidas, em que os mesmos desabafam motivos de arriscar participar desta proposta do clube, porém muitos dos motivos são vagos, correspondentes à complexidade de problemas multicausais a proporcionarem tamanha infelicidade nos personagens. Embora as regras do jogo existentes no Clube sejam explicadas, o método de encerrar a vida de alguém é oculto entre os envolvidos, assim deixa de influenciar leitores sensíveis a repetir o ato. Também demonstra o medo dos personagens escolhidos a exterminar a vida, mostrando motivos a repensar na ideia. Por fim a existência do Clube dos Suicidas é repugnante diante do protagonista, algo a ser impedido.

“Um tolo, porém coerente em sua tolice”

O Clube dos Suicidas reúne ótimos exemplos ao contar a história de elementos comuns a inúmeros livros policiais publicados nos anos posteriores, até mesmo os atuais. Descrição de bom ritmo mesmo publicado em época quando a caracterização era cheia de detalhes, manipulação das pistas de modo a sempre estarem presentes e mesmo assim descobertos apenas quando o enredo revela os segredos da trama no momento certo, a capacidade de prender a atenção do leitor em parágrafos tensos, e ainda passa mensagens positivas quanto à conscientização do suicídio mesmo quando a proposta principal da história é outra.

“Leve em consideração a importância de sua vida, não apenas para seus amigos, mas para a causa pública”

Capa de O Clube dos SuicidasAutor: Robert Louis Stevenson
Tradutora: Eliana Sabino
Publicado pela primeira vez em: 1878
Editora: Rocco
Edição: 2012
Gêneros: mistério / suspense / policial
Quantidade de Páginas: 128

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Larissa Start (finalista do Prêmio Kindle em 2019)

Iniciativas de prevenção ao suicídio existem aos montes, já as eficazes correspondem a números limitados. Enquanto há muita vontade de fazer a diferença nesses projetos solidários, a maioria carece de embasamento até mesmo para mensurar a eficácia da campanha. Pelo menos há esta minoria interessada em planejar desde a metodologia, empregando recursos desenvolvidos por pessoas capacitadas. Mais que desejar o bem das pessoas, o melhor seria agir de maneira consciente. O livro Larissa Start procura demonstrar esta prevenção embasada. Publicado por Rafael Caputo em 2019 de forma independente na Amazon, o livro foi finalista do Prêmio Kindle no ano correspondente.

“Este é Ricardo, e esse é o relato de como suas pesquisas nos sites de busca, literalmente, chegaram ao fim”

Ricardo navega pela internet antes de tentar se suicidar. Ciente de qual meio utilizaria, ele estaria pronto a encerrar tudo, quando surge a notificação de um perfil desconhecido por ele na rede social querendo entrar em contato. O avatar corresponde à Larissa, bailarina interessada em frequentar academia, apesar da preguiça. Começa a conversa depois de ver pelo perfil de Ricardo a profissão de instrutor de educação física, por isso quer a ajuda dele para fazer a matrícula. Na verdade tudo era pretexto para conversar com Ricardo, desenvolver o contato próximo e evitar de ele encerrar a própria vida, conforme uma equipe do CVV constatou a intenção a partir do novo algoritmo dedicado a monitorar comportamentos online suscetíveis a de suicidas.

“Falando em coincidências, também aprendeu que elas não existem”

Conforme o próprio autor esclarece no começo do livro, esta história usa muitos elementos da realidade ao compor esta ficção, desde a reprodução de localidades reais de Curitiba ― cidade onde a história ocorre ― até os detalhes profissionais dos personagens envolvidos, bem como os dados referentes ao suicídio. A ideia entorno do algoritmo do CVV tem elementos comuns de ficção científica, especula uma ferramenta a partir da tecnologia já conhecida hoje, apenas mais desenvolvida a ponto de possibilitar sua utilidade nesta história. Já a interação desta ferramenta é feita de forma honesta pelos personagens e realista no ponto de vista narrativo, os responsáveis pelo algoritmo mantém a postura profissional diante do paciente na maior parte da história, e o envolvimento entre as pessoas posteriormente sempre leva o humor vigente em consideração.

A história começa sob o cuidado de como abordar o assunto delicado do suicídio. Foca em mostrar a intenção do Ricardo, sem indicar causas simplistas à complexidade do suicídio. A abordagem da prevenção sobre o Ricardo também foi exemplar no começo, os diálogos proporcionaram ao personagem ficar à vontade, pois evitou o assunto de imediato, a discussão começa apenas quando ele fica confortável a contar do plano, antes a Larissa apenas oferecia conselhos ambíguos de propósito, ela correspondia à conversa do momento e ao mesmo tempo dava indiretas ao problema de Ricardo.

“Salvar vidas não era brincadeira”

Embora comece a conduzir a prevenção de maneira exemplar, os capítulos posteriores deixam a desejar. O narrador é minucioso nos detalhes, descrevendo tudo sobre a situação, o pensamento de Ricardo e de qualquer outro personagem, sendo muitos momentos desnecessários ou já sabidos pelo leitor sem precisar mencionar. Devido a este cuidado de deixar toda informação clara, repete-a inúmeras vezes, subestima o leitor de compreender por si ou até de lembrar de algo dito em capítulo anterior. Há também momentos em que a narrativa é deixada de lado e o texto assume caráter informativo, os dois tipos de textos são úteis, só ficam destoantes de ficarem juntos. A pesquisa realizada pelo autor é impressionante, é visível a atenção aos detalhes, porém incluir toda a pesquisa na narrativa prejudica a narrativa ficcional.

E neste interesse de explicar tudo, acaba por comprometer até a abordagem do tema delicado, pois descreve até nos mínimos detalhes qual a maneira escolhida pelo personagem de tirar a própria vida. Em outro capítulo começa a detalhar os motivos de outra personagem desejar o suicídio, contradizendo a prática elogiada no parágrafo anterior desta resenha. Outro fator chega a ter ressalvas por atingir apenas parcela dos leitores: é quanto a mensagens cristãs distribuídas nas falas dos personagens como maneiras de convencer alguém a desistir do suicídio. Isso pode induzir da solução contra o suicídio estar nas mensagens bíblicas, algo inadequado a seguidores de outras religiões ou entre os ateus, esses correspondentes a maior taxa de suicídio comparados às demais crenças.

“[…] detesta azeitonas e ainda prefere acreditar nas pessoas”

O livro carece de revisão tanto por erros ortográficos quanto gramaticais e semânticos. Um exemplo é o verbo “poder” conjugado no passado como auxiliar a outro verbo, no entanto sempre aparece sem o acento ― “pode” em vez de “pôde” ―, e a repetição do erro acaba destacando esse vício de usar a mesma expressão ao longo do livro. Precisa de revisão quanto a questões incoerentes também. Em certo diálogo fala sobre o personagem ir a Fortaleza em breve, na sequência outro personagem pergunta qual cidade ele iria, e a resposta sobre a “cidade” foi Ceará. Cita a idade de Larissa ser de vinte e três anos, já em outro momento é vinte e dois. Comenta de o Ricardo poderia evitar o rastreamento do acesso dele na internet caso usasse o modo anônimo do navegador, porém isso apenas deixaria de salvar o histórico no próprio computador, já os sites e possíveis algoritmos conseguiriam rastrear a atividade do usuário na mesma maneira; algo possível de Ricardo se confundir por ser formado em área diferente a da informática, já o narrador onisciente e dedicado a pesquisar sobre tudo não, faltou deixar claro de quem era a perspectiva nessa frase.

A intenção do livro Larissa Start é explícita de conscientizar sobre a prevenção do suicídio através da ficção, e apresenta maneiras exemplares de proceder neste objetivo. Uma pena o andamento da narrativa descontinuar a abordagem positiva, por vezes soando até contraditória, ainda mais pela escolha do narrador explicar todo aspecto do romance.

“O simples ‘Oi’ que mudara tudo”

Capa de Larissa StartAutor: Rafael Caputo
Ano de Publicação: 2019
Tipo de Publicação: independente
Gêneros: ficção / ficção científica
Quantidade de Páginas: 174

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Não Pare! (debut da saga escrita por FML Pepper)

Ter a vida repleta de segredos nunca revelados é complicado. Sempre quando algo deste segredo aproxima, acontece a mudança no sentido literal, mudança de casa, cidade, país. O desconforto só aumenta, ainda mais ao sofrer traumas quase mortais a todo momento, tudo decorrente dos segredos, cujas descobertas resultam na jornada da garota a enfim conhecer quem ela é. Não Pare! é o primeiro volume da trilogia ― além do quarto livro spin-off ― escrita por FML Pepper, autora brasileira de destaque na plataforma da Amazon quando lançou este livro em 2012.

“Ninguém da minha idade está preparado para morrer”

Nina Scott mora em Amsterdã junto da mãe Stela, profissional responsável pela produção de lentes oculares avançadas, serviço que demanda trabalhar em diversos lugares do planeta conforme a necessidade, segundo a mãe. Assim a filha adolescente e a mãe mudam de lugar a todo momento, inclusive acontece de novo depois de Nina quase sofrer um acidente fatal, o próximo destino seria Nova Iorque.

Desanimada de enfrentar outra vez a rotina de escola nova e logo ir embora a outro lugar, Nina fica surpresa quando a mãe diz permanecer de vez nos Estados Unidos. A animação tem prazo curto, pois os segredos ocultos a Nina em seus quase dezessete anos de vida serão revelados, sobre entidades residentes a um plano dimensional oculto à maioria dos humanos, e sobre a ambição alheia desses seres de tomarem a vida da garota.

“Nós somos a antítese da vida, todo nós”

A Nina narra a história em primeira pessoa. Começa sobre a tentativa de seguir a vida normal apesar das dificuldades da mudança constante e os acidentes evitados por pouco. A narrativa oferece a descrição das cenas e o que a Nina pensa naquele momento, demonstra a espontaneidade da protagonista adolescente e quanto a preocupações pertinentes a moças desta idade. Já o excesso de descrições físicas nos personagens apresentados na história engessa a narrativa, prolonga as cenas ao citar detalhes pouco relevantes da história. Variados verbos de dizer acompanham os diálogos, expressando o sentimento do personagem no momento da fala, sendo nem sempre essenciais, e assim alonga o texto. Os capítulos terminam com uma frase disposta a atrair o leitor ao próximo capítulo, também conhecido por gancho, recurso interessante de usar ao narrar cenas de tirar o fôlego e em seguida promete ao leitor que terá mais no próximo capítulo, ou sob estratégias semelhantes. Já neste livro fica apenas a repetição do recurso, isso diminui o impacto por ficar óbvio, ainda mais quando a frase de engajamento vem solta, pois o capítulo poderia terminar sem ela e já seria o suficiente ao desfecho daquele trecho. Tais observações deixariam o texto polido, facilitaria a leitura sem prejudicar o enredo.

Já os apontamentos a partir deste parágrafo abordam assuntos problemáticos. Por volta da metade do livro em diante a protagonista descobre sobre o universo fantástico existente nesta história, e desta parte em diante faz perguntas a todo momento; quase toda frase de diálogo de Nina termina com ponto de interrogação, então o outro personagem despeja a informação sobre a espécie dele. E mesmo assim a protagonista não entende, força a repetição da informação sob mais perguntas.

Foi interessante conferir os desejos íntimos da protagonista no começo da história, quando o perigo ainda tomava força e deixava Nina livre para distrações; agora manter a protagonista pensando em como os seres fantásticos ao redor estariam interessados de namorá-la quando a situação envolvia riscos à vida de todos, destoa do perigo apresentado. A ingenuidade de Nina insiste neste erro também, mantendo relacionamentos já claros de serem falsos, insiste mais ainda no personagem que a maltrata, provoca a todo momento e traça planos ocultos, mesmo assim ela continua a tentar relacionamento com ele.

“No final das contas, resgatar e matar têm o mesmo significado para nós”

Por agendar a publicação desta resenha em setembro, convém chamar atenção sobre a questão do suicídio neste mês dedicado à sua prevenção. A protagonista considera morrer por vontade própria, elencando os problemas que a fazem ter este desejo. Abordar o suicídio em si nas histórias teria problema nenhum, há casos frequentes na vida real e a ficção pode narrar tais acontecimentos a personagens. Porém precisa de cuidado quanto a forma a conduzir esta situação, e citar o suicídio como alternativa frente a problemas, além de descrever o que seria a causa desta intenção, contribui apenas aos péssimos exemplos de conduzir este assunto. Suicídio é questão de saúde pública, jamais uma solução; e quando alguém pensa no ato, é por motivos multicausais, muito além de traumas recentes e pontuais, abordar assim apenas passa mensagens equivocadas.

Não Pare! conduz a história da Nina de forma linear, de ritmo condizente na assimilação da protagonista às novidades de sua vida no começo da história. A metade do texto em diante compromete o livro pelas questões problemáticas expostas nesta crítica, a narrativa falha em introduzir os elementos fantásticos nas próprias cenas, em vez disso oferece capítulos cheios de diálogos explicativos, relacionamentos nada exemplares e ainda assim atrativos à protagonista.


Capa de Não Pare!Autora: FML Pepper
Editora: Valentina
Ano de Publicação Original: 2012
Série: Não Pare! #1
Gênero: fantasia urbana / YA
Quantidade de Páginas: 254

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Para Onde Vão os Suicidas? (Setembro Amarelo)

Suicídio é questão de saúde pública, apesar de sua fatalidade impactar as pessoas de maneiras individuais. Também gera comoção em pessoas inspiradas a apoiar a prevenção, pesquisar sobre o assunto tabu e escrever quanto a isso em vários formatos, seja em matérias, contos, estudos ou histórias específicas. Esta resenha tratará da história Para Onde Vão os Suicidas?, escrito por Felipe Saraiça e publicado pela PenDragon em 2017.

“É o seu corpo quem está preso. Você está livre”*

Angelina nasceu sem mãe, falecida no momento do parto. Permanece na família do pai a prosseguir na vida na companhia da nova esposa, e dela teve outra filha. Angelina encerra a própria vida, e em vez de repousar no além, encontra com a deusa Ixtab a lhe propor um desafio. Antes revela a situação de Angelina, em coma diante da família, e avisa: o corpo permanecerá assim enquanto ela aparecerá apenas a algumas pessoa para tentar impedi-las de cometerem suicídio.

“Na aglomeração de emoções, cada um vivia seus problemas”

Angelina aborda os casos em sequência, focando na pessoa vigente e só depois conhece a próxima de intenções suicidas. O narrador intervém no início de cada caso e apresenta o novo personagem, sendo onisciente, sabe de tudo sobre os envolvidos e mostra a situação dele ao leitor conforme a necessidade. A escolha da narrativa é certeira em dar oportunidade de explorar a intimidade de cada personagem o qual necessita de atenção, e então corresponder à missão de Angelina.

A boa intenção do autor é nítida em relação ao assunto principal do romance, repercutindo em todo o livro ao elaborar frases motivadoras entre os conflitos das pessoas a serem salvas pela Angelina. Porém abordar o tema do suicídio também exige responsabilidade, senão a boa intenção pode acabar causando o efeito reverso. Angelina resolve todos os casos de forma simples, indo direto ao assunto, falando do suicídio; enquanto os personagens reagiram bem ao confessar da intenção a outras pessoas, na realidade há risco de perturbar o indivíduo já conturbado pela intenção. Primeiro deveria estabelecer uma relação de confiança, conversar em busca de compreender os sentimentos do personagem, e só ao ter afinidade, poderia falar do ato pretendido, se planeja ou já possui os meios do qual deseja executar.

Falando dos meios, Angelina vê os itens escondidos pelos quais determinada pessoa pretendia usar, tendo a oportunidade de removê-los ― tirar os meios de suicídio do alcance da pessoa está entre as melhores maneiras de prevenir. Faltou cuidado ao apresentar justificativa ao desejo de cometer o suicídio, pois mesmo que a pessoa acredite ser determinado motivo, a causa tem múltiplos fatores, uns recentes, outros manifestados há mais tempo em períodos intermitentes, portanto afirmar qual problema culmina na intenção de interromper a própria vida oferece uma mensagem equivocada. O autor fez bem em evitar de dar detalhes nas formas as quais os personagens iriam executar na maior parte dos casos, pena haver exceção, esta ainda descrita de maneira violenta, de agressão direta ao corpo.

“Ser diferente pode ser perigoso”

A boa intenção do romance também precisaria de atenção à escrita, sem o devido polimento esperado a de livro publicado. Há frases em parágrafos longos a jazerem dispersas, incapazes de conectar às demais e por isso acabam prejudicando o foco na leitura. Por exemplo: o parágrafo foca na interação de dois personagens, quando uma frase interrompe esta interação e descreve o clima no cenário. Os diálogos falham na veracidade pela intenção de ressoarem mensagens morais, sempre levando ao assunto em vez de mostrar a história acontecer. Verbos de pensamento desencadeiam descrições rasas, contando os sentimentos do personagem em vez de mostrá-lo viver, interagir na cena. Existe falha na revisão inclusive no título, pois “onde” corresponde a localização de um lugar, então ao apontar o destino de alguém a ir até lá, deveria ser Para Aonde Vão os Suicidas?

Mantendo o título na forma publicada: Para Onde Vão os Suicidas? careceu da responsabilidade em tratar do assunto, o qual esbanjou de boa intenção. Todo o contexto e a exploração fantástica entorno do romance possuem excelentes elementos capazes de motivar leitores a desejarem melhorar as atitudes quanto a prevenção do suicídio. Caso tivesse o empenho de pesquisar as melhores maneiras de abordar o assunto, seria uma obra exemplar a conscientizar jovens ― possível público-alvo do livro ― a ter o cuidado de abordar diferentes casos de intenção suicida.

“Deixe que elas vivam suas próprias ilusões”

* citações copiadas conforme apresentadas no livro

Capa de Para Onde Vão os Suicidas?Autor: Felipe Saraiça
Editora: PenDragon
Publicado em: 2017
Gêneros: fantasia / YA
Quantidade de Páginas: 192

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