XP Literário

O Conto da Aia (Distopia desconcertante)

Humanos aprenderam a viver sob significados. Cada respiro reflete as conquistas e fracassos da vida, os planos do dia seguinte convictos de existir, apenas continuamos a traçar esta reta. Formamos laços afetivos e estendemos nossas utilidades às nossas companheiras ou companheiros, na verdade adotamos uma palavra diferente, usamos ninguém, apenas dividimos momentos. E se de repente perdemos tudo isso? Esquecermos de todos os outros significados por termos a emergência de um, e portanto dedicar apenas a ele e de determinada maneira? Perdemos as parceiras para o estado autoritário por serem férteis, obrigadas a cumprir uma utilidade: procriar, pois esta é a salvação, e o estado a fundamenta através da religião. O Conto da Aia é a distopia dessa realidade, publicado pela primeira vez em 1985 por Margaret Atwood, com edição em 2017 pela Rocco sob a tradução de Ana Deiró.

“O que você não souber não lhe trará sofrimento”

Offred tinha uma filha com o ex-marido Luke, e mantém esta memória em segredo consigo enquanto atua no papel de Aia. Ela é propriedade do governo sob o dever de procriar a partir da semente do Comandante destinado a ela, independente da Esposa estar descontente por essa imposição, na verdade a procriação proporciona prazer nenhum. Uma Aia cobre todo o corpo de macacão largo e touca com abas laterais a esconder nuca e os detalhes do rosto. Deve viver conforme o estado ordena, e há Olhos por toda a parte a denunciar quem transgredir.

“[…] mesmo que sejam falsas notícias, devem significar alguma coisa”

A personagem narra a própria história por meio do fluxo de consciência, cada frase reflete a insegurança dela no ambiente onde vive e das pessoas próximas, todas desconfiáveis. Limitada a sua função, Offred perde o direito de se informar, é proibida de ler e por isso os poucos lugares livres de transitar possuem figuras no lugar de texto. As raras oportunidades de comunicação são nebuladas pela suspeita de o outro testar Offred e dedurar caso ela dê a entender alguma violação ao estado, tal pressão influencia no jeito de narrar, por mais que ela conte a própria história, por vezes passa a desacreditar de si, então pede licença e retoma a cena.

Desconcertante é a palavra-chave do romance. A vida limitada da mulher privilegiada de ainda conceber vida desconcerta todas as outras, intriga ciúmes e julgamentos irreais, afasta-as de si quando dizem promover a união. Na emergência de procriar, o estado torna o sexo uma obrigação, tira todo o estímulo natural e impõe a única maneira de efetuar, resume a uma tarefa doméstica. A narrativa mostra o desconforto consequente na vida de Offred, o fluxo de consciência é válvula de escape a ela mesma, a falar da vida normal antes dessa crise e assim reforçar o propósito de preservar a vida, de ainda poder saber o que aconteceu à família.

A partir dela, também vemos a situação do homem naquela sociedade. Privilegiado em vários aspectos a ponto de nem precisar comparar, e mesmo eles foram afetados, têm os próprios desconfortos. O Comandante deve procriar, afinal o estado define todos os homens como férteis, portanto eles tentam fecundar mesmo enquanto nunca conseguem.

“Eu gostaria que esta história fosse diferente”

O Conto da Aia mostra a vida da mulher ameaçada a todo momento quanto a cumprir o seu papel. As imposições específicas nesta ambientação fictícia remetem a reflexões de situações reais de o homem ser isento de culpa na relação seja qual for os argumentos, mostra de as próprias mulheres denunciarem as outras devido a imposição da sociedade fundamentalista, ou de representar uma mulher bem informada como o perigo do estado. É o tipo de leitura necessária, difícil de entreter, de engolir, pois denuncia situações desconcertantes de nossa sociedade.

“Isso é o que somos agora”

Capa de O Conto da AiaAutora: Margaret Atwood
Tradutora: Ana Deiró
Ano de Publicação Original: 1985
Edição: 2017
Editora: Rocco
Gênero: distopia
Quantidade de Páginas: 368

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A Sociedade Cansada da Covid-19

Byung-Chul Han publicou Sociedade do Cansaço, uma coleção de ensaios a analisar a sociedade do século XXI e na predominância de mal-estar psicológico graças a ânsia pela produtividade e, digamos, obsessão pelo bem-estar. O curioso do livro é logo no começo citar a possibilidade de uma pandemia gripal como o medo eminente. Já no caso atual, uma década após a publicação original deste livro, estamos no meio da pandemia causada pelo novo coronavírus. Segundo o autor, deixamos de viver na era viral, por outro lado uma infecção mundial poderia comprometer toda a sociedade, dado a mudança de comportamento a ponto de inviabilizar a organização de uma defesa imunológica. E não poderia ser mais verdadeiro.

Enfrentamos a crise do coronavírus por mais de um ano e vemos o quanto falhamos em impedir o avanço da doença. Sem o plano de gerenciamento federal e o improviso defasado de cada governo estadual, perdemos mais de duzentas mil vidas enquanto os políticos perdem tempo em culpar o outro e promover a si, enquanto brigamos entre familiares e amigos sobre a importância de usar a máscara. Isso falando apenas do Brasil, muitos outros países falharam em lidar à sua maneira. E é possível analisar porque a sociedade permitiu esses fracassos na prevenção da covid-19 por meio do próprio livro Sociedade do Cansaço, por meio das críticas pontuais presentes nos ensaios a relacionar as situações vividas ao longo deste último ano.

A falta da necessidade do outro

O que faz o representante de toda a população declarar a imprensa que pouco importa ― “e daí?” ― o número de mortes em crescimento, e isso desde o começo da pandemia? O sujeito atingiu a conquista de poucos, foi eleito o presidente da república, por isso já se sente realizado. Ao cumprir o objetivo pessoal, falta estímulos para olhar a necessidade do outro, de cada família a perder um ente durante a pandemia.

Desde antes da crise sanitária, já repudiava parcelas minoritárias da sociedade, essas irrelevantes a ele, pelo contrário, o ato de as rejeitar o favorecia em manter a posição privilegiada. Fica exausto sob o foco de manter o privilégio, e com isso se isola até do partido que o elegeu. Todos os ataques e indiretas a adversários políticos é o sinal de cansaço, mas não cansado deles; ele é o pivô do desgaste. Byung-Chul comenta sobre o excesso de positividade, há tanto em si que o deixa saturado, esquece do problema alheio ― apesar deste “alheio” ser a população, portanto seria o dever dele de atender ― por estar ocupado demais consigo.

Partindo do presidente, há toda a cadeia eleitoral dele e até a de outros segmentos partidários agirem por conta própria em detrimento do bem comum. Em suma, a sociedade deixou de ser disciplinar. No lugar de obedecer ao responsável, seja o patrão ou o estado, os indivíduos desta sociedade seguem os objetivos impostos por si, em busca de alcançar o que acredita ser ideal na sua vida. Assim estimula o contraste da necessidade da saúde pública em conter a infecção do novo coronavírus, o que de fato a pessoa acredita saber da doença e no quanto subestima as medidas de controle no intuito de manter os objetivos pessoais em prioridade.

Isolado em seu desempenho

Agora é a vez de falar de as pessoas insistentes em trabalhar nas áreas não essenciais mesmo durante a quarentena. Um assunto delicado, impossível julgar a todos a trabalharem de qualquer jeito, mesmo burlando a fiscalização por haver muitos brasileiros carentes de renda. Precisam garantir o sustento da família quando nem têm condições de implantar meios seguros de trabalhar, como vender apenas por delivery ou trabalhar de home office. Por isso as críticas a seguir servem a quem tinha condições de trabalhar de forma segura ou garantir isso aos seus funcionários, já esses tiveram de adaptar conforme a demanda.

Na verdade, nem é preciso de o superior cobrar do funcionário, ele já o faz por questão de desempenho, do esforço em atingir as próprias ambições. O funcionário quer garantir a melhoria de vida a si e sua família, tem motivos pessoais o suficiente a entregar o melhor no trabalho em troca de ascender na carreira, às vezes a insegurança de perder o emprego no mercado de trabalho concorrido já é motivo o suficiente. Portanto tem de trabalhar independente da condição, assim ele arrisca no meio da pandemia, sem necessidade de ouvir uma reprimenda do patrão. Já quanto as recomendações dos profissionais de saúde, cientistas ou mídia especializada, na prática afastam os objetivos do indivíduo já insubordinado, portanto nem quando o governo impõe restrições a conter a disseminação do vírus motiva participar dessas medidas de controle, pois ele está centrado no desempenho pessoal a garantir o sustento da família.

Esta insubordinação do funcionário oferece a compensação de entregar resultados melhores e ágeis no trabalho, por isso os superiores até incentivam tal prática, tira a responsabilidade deles de cobrar o funcionário, pois ele mesmo se encarrega da pressão. A consequência é um fator já presente antes da pandemia, a ponto de Sociedade do Cansaço já citar, e agora os noticiários mostram cada vez mais trabalhadores afetados: as crises de burnout, o sobrecarregamento capaz de esgotar todo indivíduo. É questão de tempo de tornar os indivíduos de desempenho em fracassados, e a pandemia diminui esse tempo.

Virtualização = descaracterização

O modelo de negócio das redes sociais garantiu a alta de lucros na pandemia, afinal os usuários acessaram por mais vezes durante o isolamento social. No ano passado também teve o lançamento do documentário O Dilema das Redes Sociais ― comentado neste outro post ―, que escancara a manipulação dos usuários por meio dos dados e as consequências geradas pelo conteúdo extremista fácil de disseminar pelo sistema.

A questão do desempenho pessoal penetra até o mundo virtual, ainda mais pelo sentido quantitativo. O número de amigos/seguidores alimenta o ego individual, além de proporcionar a demanda de atender a esses usuários conectados, obrigando ao indivíduo abrir mão do próprio caráter. Adapta o comportamento no objetivo de manter tal número em crescimento, flexibiliza a si em prol da eficiência comunicativa. Jaron Lanier comentou uma experiência dele ao tentar atender a demanda do público ― isso já bem antes de todo o alvoroço das redes sociais ―, começou a elaborar textos que ele discordava ou proporcionava discórdia entre os leitores, assim atraía comentários e visitas ao site, índices quantitativos de bom desempenho, sob o custo de o prejudicar como pessoa.

Além dos problemas decorridos da interação virtual, há o do sistema de processamento computacional. A atividade humana está moldada em desempenho, já os computadores são criados sob esse pretexto exclusivo. O sistema engole dados incessantemente, então processa essas informações massivas em tarefas difíceis de um humano acompanhar. Sob certo aspecto, o computador chega a ser burro, incapaz de hesitar e refletir sobre as consequências desse processamento.

O modo de vida humano é incompatível com a rotina de processamento do computador, mesmo assim acompanhamos nossas tarefas a partir do desempenho dele. Domina as pessoas pelo excesso de informações estimuladas pelo acesso instantâneo ― gera recompensa em tão pouco esforço ― que impulsionam reações, seja de admiração ou repúdio, este último mais presente. As informações geradas através da virtualização criam uma camada entre o indivíduo e a realidade, molda noções individualizadas do mesmo fato, pois sistema da rede social personaliza a transmissão de conteúdo de cada usuário. As pessoas comunicam a partir dessas experiências personalizadas e muitas vezes se desentendem sem perceber, por isso muitos ambientes virtuais estão infectados pela polarização a refletir ações intolerantes no mundo real.

Desempenho molda a vida

Byung-Chul criticou a falta de transcendência na Sociedade do Cansaço, pois o estimulo do desempenho reduz a vivência pela vida em si, prolongada a qualquer custo, sem necessariamente proporcionar equilíbrio a ela. Ele diz de a sociedade endeusar a saúde, e por consequência, tornar esta necessidade a uma entidade de crença na verdade nos distancia. Em vez de tornar as pessoas condizentes à situação da população nesta crise de saúde pública, elas buscam maneiras de se provar saudáveis diante de todos para assim conquistar novas oportunidades.

Na prática virtualizada, parte da sociedade empenha a maneira de viver em conforto no meio da pandemia ao invés de sobreviver a ela. Já a realidade está comprometida com o número de infecções e mortes em constante crescimento e pelo negacionismo perante a vacina dada pela insubordinação a órgãos repletos de profissionais competentes, pois entregam resultados incompatíveis ao empenho esperado por esta parcela da população. A Sociedade do Cansaço não apresenta soluções, nem eu tenho a qualificação de a fornecer, só posso colaborar através de um palpite passível de discussão. A sociedade é composta por indivíduos, portanto cada um precisa fazer sua parte, buscar discernimento alheio ao desempenho e colaborar pela vida ao próximo indivíduo, pois de um em um, chega a todos.

Livros comentados

Capa do livro Sociedade do CansaçoAutor: Byung-Chul Han
Tradutor: Enio Paulo Giachini
Publicação original em: 2010
Edição: 2019
Editora: Vozes
Gêneros: ensaio / não ficção
Quantidade de Páginas: 128

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Capa de Dez Argumentos para Você Deletar Agora suas Redes SociaisAutor: Jaron Lanier
Ano de Publicação: 2018
Editora: Intrínseca
Edição: 2018
Gênero: Não-ficção
Quantidade de Páginas: 190

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Shogum dos Mortos: As Sete Faces do Horror

Sete brasileiros desenharam novas histórias de fantasia sombria sobre samurais. Soma a guerra constante no período histórico japonês com o líder de clã desesperado em superar os adversários, e o resultado são acordos infames responsáveis por transtornar a vida de todos, de camponeses a samurais. Shogum dos Mortos: As Sete Faces do Horror reúne sete histórias ilustradas em determinado arquipélago do Japão cujo clã local amaldiçoa os próprios moradores a renascerem zumbis após a morte. A editora Draco publicou em 2020 graças ao sucesso de financiamento coletivo.

“O Poder deixa os homens cegos”

Em meio ao desespero de sucumbir o próprio clã entre os demais existentes no arquipélago Yamato, Hideki Tachikawa visitou o Reino Sombrio dos Mortos e fez um acordo com a deusa Izanami. Desde então cada membro morto do clã volta à vida no próximo amanhecer. Tal evento encadeia transtornos distintos ao clã Tachikawa. Alguns samurais mortos-vivos se rebelam contra o clã, até os camponeses voltam à vida, inclusive Saori, esposa do herdeiro Seiji Tachikawa, ressuscita após ser assassinada sob conspiração de Hideki e devora o cérebro de Garo, filho do casal.

“Renascer para sofrer mais um dia!”

O enredo apresentado no parágrafo anterior contextualiza as setes histórias em quadrinhos desta coleção, presente em texto no livro. A obra é do tipo fix-up, ou seja, as histórias são paralelas, relacionadas a consequências da tragédia do clã Tachikawa. Assim possibilitou explorar a diversidade presente na cultura japonesa nas diversas situações a enfrentar os samurai zumbis, seja entre os guerreiros, através de ninjas, envolve até monjas e camponeses. Explora o conflito de cada parcela da população submissa ao clã. Cada ilustrador trabalhou em uma história, tudo sob o roteiro de Daniel Wernëck e edição de Raphael Fernandes, um trabalho conjunto capaz de deixar o livro único, sem nenhuma das histórias dissociar das demais.

Diálogos enfraquecem a qualidade das histórias em determinados momentos por trazer frases clichês de quadrinhos e mangás. Adjetivos dispensáveis deixam as frases redundantes sem colaborar no significado do texto, por exemplo: em “Reino Sombrio dos Mortos”, a menção dos Mortos já denota do local ser Sombrio. Alguns balões soam deslocados da história e apenas contam uma informação ao leitor a contextualizar o passado dos personagens, por outro lado a diversidade da obra compensa em possibilitar diferentes pontos de vista em número de páginas limitado.

“Destruir um castelo inteiro, guardado por soldados imortais? Mas isso é uma missão suicida!”

Shogum dos Mortos: As Sete Faces do Horror aproveita a cultura japonesa focada nos guerreiros samurai e explora diversos aspectos locais enquanto parte do fenômeno sobrenatural a traçar histórias de personagens afetados pela infestação de zumbis. A qualidade gráfica e o empenho na contextualização compensam a escrita clichê presente nas histórias.

“Como são fúteis os sonhos dos homens”

Capa de Shogum dos Mortos: As Sete Faces do HorrorRoteirista: Daneil Wernëck
Ilustradores: Breno Fonseca, Dattan M. Porto, H’D Rodrigues, Danilo Dias, Heitor Amatsu, Kazuo Miyahara e Hilton P. Rocha
Editor: Raphale Fernandes
Editora: Draco
Edição: 2020
Gêneros: quadrinhos / fantasia sombria
Quantidade de Páginas: 168

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Raposas: Contos Fantásticos Orientais

Histórias persistem ao longo dos séculos, e mesmo as autóctones chegam também a outras regiões, por vezes demonstram significados diferentes de um mesmo fenômeno, ou gera uma reflexão ímpar daquela cultura capaz de a admirar da forma apresentada. Este livro traz o exemplo da contemplação de certo animal nos países asiáticos. Raposas: Contos Fantásticos Orientais reúne algumas dessas histórias tradicionais aos leitores brasileiros. Organizado por Lua Bueno Cyríaco e traduzido por ela além de Felipe Medeiros e Yu Pin Fang, foi publicado em 2020 graças ao sucesso da campanha de financiamento coletivo.

“’E, lembre-se, também não sou uma raposa ingrata’”

São contos oriundos da China, Vietnã, Coreia e Japão, distribuídos em período de dez séculos de escrita. Alguns já são adaptações de narrativas orais para a escrita, persistentes graças as gerações a recontarem essas histórias até alguém as registrar no papel. Das mais diversas nuances, as narrativas compartilham a raposa como elemento central ao explorar os diversos significados dados a esses animais na cultura da respectiva autoria. Desta diversidade, a edição do livro engloba os contos em três categorias de raposas, as ardilosas, amorosas e malignas, e mesmo dentro desse enquadramento cada conto é único em significado.

Esta resenha não aborda cada conto em respeito ao leitor conferir por si, senão acabaria comentando detalhes prejudiciais a experiência de leitura. Por outro lado há um ponto importante em avisar a quem pretende ler esta coletânea, a publicação dedica a traduções dos contos orientais conforme eles são, sem adaptar em prosa moderna, respeitou até as narrativas de origem oral, o que tornam a escrita plana, de frases objetivas a transparecerem as intenções dos personagens e as simbologias explicadas. A coletânea é interessante quando a depara sob a curiosidade de vislumbrar o significado cultural empreendido às raposas pelos países de onde a história é contada, um material de referência útil a escritores interessados em elaborar as próprias histórias de raposas.

Raposas: Contos Fantásticos Orientais traz os olhares tradicionais de quatro países asiáticos sobre as raposas, respeita as culturas de todos eles ao traduzirem os contos da forma como são, e assim oferece uma referência de qualidade por meio do design editorial de encadernação oriental e lindas imagens feitas também por artistas vigentes aos dos períodos dos contos.

“Sua beleza fez uma raposa má se apaixonar por você”

Capa de RaposasOrganizadora: Lua Bueno Cyríaco
Tradutores: Felipe Medeiros, Yu Pin Fang e Lua Bueno Cyríaco
Editora: Laboralivros
Origens dos contos: entre os séculos VIII e XIX
Edição: 2020
Gêneros: fantasia / ficção regional
Quantidade de Páginas: 120

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Melhores XPs Literários de 2020

Parece até incrível ver o ano de 2020 está prestes a acabar. Todo mês de dezembro recheia as conversas sobre o quanto o ano vigente foi pior de todos os anteriores, sob esperança de o próximo melhorar, mas no fim de 2019 poucos acreditavam na possibilidade de haver a pandemia e o quanto dificultou a vida de todos, ainda mais por causa desses poucos ainda descrentes na gravidade da doença e agravam toda a situação. Mesmo assim mantenho o ritual de dezembro, espero encontrar um mundo melhor em 2021, que a vacina nos ajude a ter mais segurança sanitária de sair de casa e diminuir o medo de trazer a doença a pessoas do grupo de risco, além de possibilitar projetos ousados de melhorar a vida ou novas experiências.

Pela primeira vez optei entrar em recesso nas postagens semanais deste blog, também revi conceitos sobre a interação social pela internet, esses ainda pendentes a reformular a presença digital do blog. Já de resto mantive a rotina, inclusive esta, a de listar as melhores leitura do ano.

Tive o menor número de leituras desde quando inaugurei o blog, e me orgulho delas do mesmo jeito. Nego a sobrecarregar pela quantidade a troco de corresponder rankings na internet poucos significativos na prática, e ainda aumentaria o risco de entregar o material abaixo do esperado. Estou cada vez mais exigente, afinal devo valorizar o tempo investido em livros capazes de proporcionar boa experiências. Por isso, confira agora quais foram as minhas Melhores XPs de Leitura em 2020:

10 ― Laços de Família

10 - Laços de Família

Eu tenho uma história em particular sobre a escrita desta autora a completar o centenário caso estivesse viva em 2020. Li Clarice pela primeira vez quando adolescente e detestei. A culpa foi minha, falhei por esperar resultados diferentes aos oferecidos pelos contos. As histórias tratam de rotinas escritas em reflexão a proporcionar novos olhares tais como a das protagonistas revelavam pelos fluxos de consciência, ou por despertar os horrores tão corriqueiros a ponto de precisarmos nos lembrar o quanto é grave. Por esses motivos, vale a pena o esforço de explorar as histórias desta antologia.

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9 ― Atômica

9 - Atômica

Esta graphic novel tem a proeza de tomar o elemento-chave do conto ― o de apresentar duas histórias ao mesmo tempo ― e acrescentar a surpresa do mistério revelado, fazer o leitor puxar a narrativa submersa e fundir todo o enredo, façanha ideal aos apreciadores de ficções policiais. O filme mantém o nível e acrescenta cenas de ação imersivas ― sem o jogo de câmera usado a disfarçar performances desagradáveis ― e trilha sonora da época presente por quase toda a duração do filme; só o final desvirtua do enredo original, talvez por ser polêmico demais ao público de cinema.

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8 ― O Iluminado

8 - O Iluminado

E Stephen King aparece por aqui de novo, desta vez pelo livro a conquistar a minha preferência entre os livros já lidos, apesar de este figurar num ranking inferior aos dos demais ― como eu disse, ando cada vez mais exigente, e encontro livros a suprir esta demanda. Eu admirei a construção de suspense neste romance a ponto de elaborar uma matéria no blog Ficções Humanas focado nisso, exemplo do quanto a leitura agradou e ainda foi útil a conversar sobre a elaboração desse elemento importante da ficção.

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7 ― Story

7 - Story

Já é de praxe conferir livros técnicos sobre escrita tanto a melhorar minhas habilidades como autor, quanto a compreender melhor o porque de obras excelentes atenderem esta expectativa. Portanto eu teria de conferir Story, um dos livros mais mencionados entre os outros autores, e garanto ser bom o bastante a conquistar elogios de muitas pessoas. A proposta é discutir sobre as formas de enredo e aprender por si a elaboração de roteiros, dar autonomia a explorar maneiras de aprofundar a escrita em vez de seguir regras funcionais de outro autores.

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6 ― O Suicídio e sua Prevenção

6 - O Suicídio e Sua Prevenção

Eu procuro falar sobre suicídio e alertar autores que poderiam melhorar a discussão deste assunto ao escrever histórias desde o começo do blog, e busco conceitos a embasar as maneiras conscientes de tratar o assunto. No meio desta procura, encontrei o melhor conteúdo em O Suicídio e sua Prevenção. A abordagem didática é ideal a qualquer leitor aprender sobre a importância de tratar o suicídio como questão de saúde pública, sendo útil a autores refletirem os conceitos e adotá-los na hora de escrever histórias ou cenas dedicadas ao assunto, compartilhei dicas pelo blog Ficções Humanas graças a este livro.

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5 ― O Clube dos Suicidas

5 - O Clube dos Suicidas

O livro anterior também serviu de base a eu elaborar críticas ao longo do mês de setembro de ficções a tratarem do assunto em algum momento, e O Clube dos Suicidas foi o único capaz de atender minhas expectativas. Também reconhecido entre as primeiras histórias de investigação escritas, esta novela leva o nível de raciocínio dos protagonistas ao limite, arriscando as próprias vidas caso falham em prever os atos dos adversários. Publicado no fim do século XIX, a abordagem quanto ao suicídio surpreende por ter mais consciência quando comparada a obras recentes, pois essas deveriam ter conhecimento acessível ao assunto.

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4 ― A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça

4 - A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça

A campanha de financiamento coletivo proposto pela editora Wish superou todas as expectativas e garantiu inúmeras vantagens pelas metas estendidas e alcançadas ao longo da campanha. O resultado foi o acréscimo de novas novelas além a da história principal, essas tão boas quanto ao demonstrar a qualidade de Washington Irving em explorar as narrativas folclóricas e tornar as próprias vivas de contadores verossímeis de causos estadunidenses sob influência de lendas europeias.

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3 ― Caetés

3 - Caetés

Graciliano Ramos volta ao pódio do XP Literário. Primeiro livro publicado pelo autor, cujo protagonista reflete críticas pertinentes até a aspirantes a escritores de hoje, quase um século depois de escrito. O protagonista narra a própria história sem ter consciência de suas contradições impostas por Graciliano e que os leitores atentos podem inferir por meio dos ensaios reunidos nesta nova edição da editora Record.

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2 ― A Morte de Ivan Ilitch

2 - A Morte de Ivan Ilitch

A Antofágica se destaca em renovar histórias de domínio público num trabalho moderno e de identidade única desta editora. O título já avisa como a história acaba, o prefácio disponível da edição também explica de o leitor poder sentir a morte do personagem, e nada disso estraga a experiência de leitura, pois a escrita de Tolstói provoca tamanha sensação só por meio das palavras. Antes do ápice, a novela explora a condição social de servidor público russo daquela época, explora ainda o dilema feminino da esposa sujeita à união do protagonista, e escancara quanto mesmo na morte de um, a vida dos outros continua.

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1 ― As Intermitências da Morte

1 - As Intermitências da Morte

E outro autor português conquista o espaço de melhor leitura do ano, embora eu acredite poucos queixariam de este autor ser José Saramago. O jeito próprio de escrever fornece a leitura singular, desafiadora e ao mesmo tempo prazerosa de conferi-la funcionar diante dos olhos enquanto acompanha as consequências de um lugar onde a morte deixa de tirar vidas. Quando tem a impressão de o autor ter explorado o bastante da premissa, ele provoca o tumulto que transforma o objetivo da história em outro enquanto aproveita a explorar novas perspectivas descobertas neste ponto de virada.

Story (técnicas de roteiro, úteis a romances também)

Após se encantar pelo mundo criativo a ponto de desejar fazer parte dele, muitos empolgam e pulam a parte do estudo e aprofundamento no objetivo de compreender o motivo de essas histórias fascinarem o público. Avançam direto na parte prática e repetem as cenas reconhecidas apenas na superficialidade. Sem amadurecerem e treinarem através de falhas, ficam sensíveis a críticas e negam aprimorar a partir delas, apenas contribuem na crise constatada pelo autor deste livro. Story é uma das opções a estudar sobre criar ficções voltadas ao cinema e ainda úteis a romancistas. Elaborado por Robert McKee em 2006 e conferido na edição de 2018 publicada pela editora Arte & Letra sob a tradução de Chico Marés, o livro já inspirou diversos profissionais criativos.

“Pois talento sem o conhecimento da arte é como combustível sem um motor”

McKee usa as primeiras páginas do livro de desabafo sobre a qualidade das histórias em geral. Os aspirantes deixam de estudar as formas da obra cinematográfica e apelam aos recursos visuais, falham em aproveitar os recursos narrativos e de mergulhar nos aspectos da ficção. Também aponta questões pessoais e outras que é melhor conferir por si e tirar as próprias conclusões, pois isso faz parte do estudo.

Depois do desabafo, o texto mergulha na abordagem prática da experiência do diretor de cinema além de mencionar a influência literária, por isso torna relevante a romancistas também. O autor baseia toda sugestão em exemplos práticos existentes nos filmes, e por explicar o motivo de as reviravoltas de enredo e outros elementos funcionarem, ele teve de mencionar os principais spoilers das obras citadas, cuja utilidade das dicas superam qualquer infortúnio de descobrir pontos-chave de filmes ainda não vistos, na verdade podem até atiçar o interesse de assistir mesmo ciente das reviravoltas e conferir o efeito prático descrito no livro.

“Criatividade raramente é tão racional”

Caso tenha lido outros livros sobre estudo das ficções, é provável encontrar os mesmo termos usados por McKee em definições diferentes, às vezes por perspectivas distintas de cada autor entender aquele termo, ou no intuito de conduzir o leitor ao mesmo raciocínio enquanto aborda o tópico. O importante é assimilar o aprendizado além do conteúdo exposto, ou conforme o próprio livro demonstra: aprofundar nos conceitos para assim propor obras imersivas da mesma maneira a das exploradas em Story e demais livros cheios de exemplos práticos.

Apesar de ter a seção exclusiva a falar das diferenças entre histórias narradas em prosa, teatro e cinema, o autor compara as características correspondentes a todo momento, e favorece o conteúdo a aspirantes dos três tipos de produção. A utilidade exclusiva a roteiristas de cinema está restrita a comentários específicos sobre as práticas da produção de filmes ― enquadramento de câmera e o trabalho reservado a atores, por exemplo ―, de resto os demais ficcionistas podem aproveitar cada sugestão do autor. A única ressalva quanto a aspirantes em prosa está na qualidade do texto, que abusa da palavra “mas” e elenca os contrapontos de argumentos por todo o livro, tornando a leitura repetitiva neste aspecto.

Story é reconhecido entre os profissionais por ótimos motivos. De conteúdo equilibrado entre conceitos e exemplos práticos, cada sessão de leitura rende anotações úteis a refletir e aprimorar seus trabalhos ficcionais seja em qual formato ou gênero desejado.

“Story é sobre arquétipos, não estereótipos”

Capa de StoryAutor: Robert McKee
Tradutor: Chico Marés
Publicação original em: 2006
Edição: 2018
Editora: Arte & Letra
Gêneros: não ficção / escrita
Quantidade de Páginas: 430

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O Trabalho Não Precisa Ser uma Loucura

Se não acompanha por si, pelo menos conhece alguém a estampar frases motivacionais de supostos vencedores na carreira profissional por meio de esforço integral. Trabalhe enquanto eles sonham, brincam, reclamam ou algo do tipo. Na prática trabalhe também mesmo quando a família precisa de você, ignore as recomendações médicas, somam as dores musculares e de cabeça sendo parte do empenho, fracasse pela exaustão minar toda a criatividade e foco, ou porque “deixou de se esforçar o suficiente”. Buscar outro ponto de vista é diferente de fugir do trabalho ou seguir pelo caminho mais fácil e sem resultado, pelo contrário, é aliar a eficiência com o bem-estar familiar e empresarial de modo a manter a rotina produtiva.

O Trabalho Não Precisa ser uma Loucura elenca exemplos do quanto a cultura empreendedora de trabalho árduo prejudica o ambiente corporativo e quais medidas funcionam na empresa administrada pelos autores Jason Fried e David Heinemeier Hansson. Livro foi publicado em 2020 e trazido ao Brasil no mesmo ano pela editora Harper Collins sob a tradução de Daniel Austie.

“Para muitos, a loucura do trabalho acabou se tornando algo normal”

Sempre direto ao assunto tratado no capítulo correspondente, o livro proporciona leitura rápida e fácil de compreender. Segue a dinâmica de criticar a postura empreendedora contrariada pelos autores, em seguida contrastam por meio de exemplos tirados na experiência da própria empresa. Também lavam a roupa suja e cita os erros do passado, de atingir objetivos sem receber o resultado esperado, ou perceberam da necessidade ser na verdade outra, assim sobreviveram no mercado há mais de quinze anos, mesmo seguindo paradigma próprios e divergentes dos aceitáveis por outras empresas.

O conteúdo é limitado a experiências dos autores na empresa deles, salvo citações de outros profissionais de diferentes ramos com exemplos de rotina equilibrada no fim de certos capítulos e a menção de experiências pontuais de outras pessoas ― de fontes listadas na seção Bibliografia. Isso prejudica por deixar de abranger as discussões por meio de outras fontes, sejam essas favoráveis ou contrárias aos ideais dos autores, enquanto contribuiriam numa discussão justa. Na prática pode servir para reafirmar a quem já reflete da rotina de trabalho estar desgastante. Esta sugestão comprometeria a fluidez da assimilação em troca de estimular o leitor a refletir mais quanto as considerações elencadas. As dicas funcionam para os autores, e eles mesmos afirmam em determinado momento quanto a soluções de certa empresa nem sempre corresponderem a de outras, caberia o leitor a buscar a maneira por si, e nisso o livro pouco contribui.

Tratando de os autores citarem soluções e depois contradizerem de essas falharem em corresponder à realidade do leitor, há descuidos em outras menções. Não chega a contradizer, mas certas escolhas de palavras provocam desentendimentos. Um exemplo é a afirmação do quanto as metas sobrecarregam os funcionários e a direção da empresa sem necessidade, já nos capítulos posteriores continuam a falar de metas, embora com outro significado, atrapalha a compreensão por usar a mesma palavra.

“Não dá para fixar um prazo e depois adicionar mais trabalho. Isso não é justo”

O Trabalho Não Precisa Ser uma Loucura atrairá os leitores pelo título entregar a esperança de a sobrecarga na rotina profissional não corresponder ao resultado de crescimento. Os exemplos favorecem até mesmo a produtividade e a rentabilidade da empresa junto ao bem-estar dos funcionários, longe de serem desculpas ditas por preguiçosos, interessados em conseguir mais ao fazer menos. Por outro lado, as dicas são específicas das experiências dos autores, podendo ser inviáveis a demais empresas. Colaboraria mais se baseasse o conteúdo através de discussões de argumentos defendidos pela cultura do empreendedorismo através de exemplos além dos aplicados pelos autores.

“A única maneira de trabalhar mais é ter menos trabalho”

Capa de O Trabalho Não Precisa Ser uma LoucuraAutores: David Heinemeier Hansson e Jason Fried
Tradutor: Daniel Austie
Ano de Publicação: 2020
Editora: Harper Collins
Gênero: Não Ficção / desenvolvimento pessoal / empreendedorismo
Quantidade de Páginas: 240

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A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (editora Wish)

As narrativas sobre lendas locais sobrevivem não por terem apenas as aparições sombrias, mas por parecerem reais. Antes de contar sobre os monstros, elas contam sobre nós mesmos, o povo do lugar ou das semelhanças presentes nas demais populações. Gerações as transmitem em conversas, e certos autores a transcrevem ou aproveitam a lenda e traçam uma narrativa autoral. Washington Irving usou das aparições e contextos históricos ao escrever suas histórias no século XIX, e a editora Wish reuniu quatro contos do autor, entre eles A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, analisados um por um a seguir:

A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça

Os habitantes do Vale Adormecido ― Sleepy Hollow ― vivem em paz, apesar das lendas insistentes a sair pelas bocas da população. Ali o jovem Ichabod Crane possui uma escola e dá aulas às crianças do lugar. Bem letrado, atrai atenção por onde passa, apesar de ele almejar apenas a herdeira de Baltus Van Tassel, pois além de formosa, teria a vida garantida quando recebesse a herança. O único problema é a rivalidade de Brom Bones, o pretendente mais provável dela, de força tão inescrupulosa quanto as atitudes. E toda essa história narrada em torno de Ichabod menciona vez ou outra a lenda do cavaleiro sem cabeça, conhecido como o soldado hessiano ― alemão ― a perder a cabeça com o tiro de uma bola de canhão, e desde então cavalga sem ter essa parte do corpo sobre os ombros.

“Toda a vizinhança é repleta de histórias locais, lugares assombrados e superstições obscuras”

O título original em inglês, The Legend of Sleepy Hollow, corresponde melhor ao andamento da trama, a descrever os aspectos do Vale Adormecido, prosseguindo assim mesmo ao focar na perspectiva de Ichabod, por citar aspectos do Vale interessantes a este personagem. Apesar disso o título em português direciona o tópico da história ao ser sobrenatural e também acerta, afinal a narrativa aproveita cada oportunidade de o citar, sem falar da aparição é o ponto forte da trama, transforma a história do avesso, deixando os últimos parágrafos tensos.

Além da narrativa focada no personagem e na ambientação de terror, o texto traz elementos folclóricos no sentido de os contos serem difundidos pelas próprias pessoas. A ambientação estadunidense do Vale sofre a influência da família holandesa local, sem falar do cavaleiro sem cabeça ter a origem germânica, tornando o sobrenatural europeu realista nesse contexto. Apesar de poupar nos travessões, as vozes dos moradores ecoam nos parágrafos, contando as diferentes versões do que sabe ou desconfia entorno da lenda.

Rip Van Winkle

Rip Van Winkle é sujeito de capacidades humildes, aquém da exigência de sua esposa, por isso sofre por antecedência cada reprimenda da mulher. Entre as tentativas de adiar a bronca dela, sai pela floresta na companhia do cachorro Wolf e uma espingarda. Da exaustão desta atividade vai à estalagem, onde encontra pessoas de vestes estranhas. Depois de desentender com elas, adormece. Ao acordar, perde a companhia do cão de estimação, a espingarda em mãos fica toda enferrujada. Ele está na mesma floresta onde foi caçar, perambula pelo vale onde mora de mesma paisagem, exceto de tudo ao redor ser diferente.

“[…] seus erros e tolices são lembrados ‘com mais tristeza que raiva’”

Pela narrativa dedicada ao ponto de vista de Rip, a história explora essa limitação ao dedicar as reações do personagem conforme descobre o que acontece consigo diante dos demais personagens. A descrição mescla a ambientação daquele período histórico com o desconhecido por Rip, facilitando a compreensão do leitor a reconhecer mesmo em poucos detalhes no que aconteceu em todo o país enquanto Rip ficou ausente durante o sono.

O Noivo Espectral

O barão mal tinha a riqueza característica da família em tempos remotos, mesmo assim mantém os velhos costumes. Alimenta rivalidades entre outras famílias por desavenças tidas no tempo de seu tataravô. Possui apenas uma filha, esta que ele escolhe casar ao tratar com o pai do noivo, sem sequer conhecer o rapaz, a filha muito menos. Após tudo combinado, o barão prepara o banquete de boas-vindas na noite anterior ao do casamento, momento quando os noivos enfim se conheceriam, não fosse o noivo cruzar caminho contra ladrões e perder a vida, apenas seu soldado sobrevive, encarregado de levar a triste notícia à família do barão. Ao retomar a história do banquete, vemos o desfecho acontecer de outra maneira.

“[…] pois a linguagem do amor nunca é ruidosa”

Sem detalhar muito, esta história é realista, só usa o elemento fantástico ao demonstrar o quanto as concepções humanas estão suscetíveis, podendo enganar até o leitor ciente dos dois lados da história. Este conto é outro exemplo de qualidade do autor em explorar os costumes sociais da sociedade europeia ao desenvolver a narrativa, sem causar monotonia, pois até os antigos valores podem ser repensados ao viver no presente, ainda mais quando situações extraordinárias acontecem. Caso aceite um pequeno spoiler ― senão apenas pule o resto deste parágrafo ―, a história tem desfecho positivo e até moral, por outro lado deixa subjetivo a situação do noivo escolhido pelo barão.

O Diabo e Tom Walker

Tom Walker detém a avareza comparável apenas ao da própria esposa. O casal rivaliza consigo por cada cônjuge pregar peças e tirar vantagem do outro. Um personagem desse tipo está fadado a encontrar o diabo em pessoa, e assim acontece. Tom Walker conta do encontro à esposa, e esta tenta tirar vantagem da criatura, dias passam e ela jamais retorna, então Tom Walker também tenta a sorte.

“Rezava alta e vigorosamente, como se o céu tivesse que ser tomado à força e aos berros”

Por haver tantas histórias do tipo nesses dois séculos após da publicação deste conto, a trama segue previsível, nem por isso a torna dispensável. Até os personagens do conto sabem o porquê Tom Walker tem esta consequência, portanto ficam conformados. Ao contrário do conto anterior, a situação sobrenatural causa um resultado ordinário. A descrição densa ambienta mesmo os leitores atuais aos costumes da época, mostra particularidades em torno da figura conhecida por todos, de aspectos particulares aos do local.

Capa de A Lenda do Cavaleiro Sem CabeçaAutor: Washingont Irving
Tradutora: Camila Fernandes
Publicações originais: entre os anos 1819 e 1824
Editora: Wish
Edição: 2020
Gêneros: fantasia sombria / terror / ficção folclórica
Quantidade de Páginas: 192

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Como Sobreviver ao Dilema das Redes Sociais (e da Google)

Netflix lançou O Dilema das Redes Sociais em setembro, no mês anterior ao desta postagem, e desde então várias matérias e, é claro, postagens nas próprias redes enaltecem os argumentos apresentados pelos entrevistados, afinal muitas das situações já eram conhecidas, visíveis a quem estuda ou interage neste meio de maneira profissional. O documentário é eficiente por dar voz aos profissionais responsáveis pelas ferramentas viciantes, arrependidos de participar delas, além de demonstrar uma família prejudicada do dilema por meio de encenações dramáticas.
Eu já conhecia boa parte das características mostradas no documentário, confesso de ter falhado em reconhecer algumas delas serem parte do problema a gerar polarização e distração, de entender o quanto eu também fui afetado. Depois de assistir, comprei o livro Dez Argumentos Para Você Deletar Agora suas Redes Sociais, cujo autor Jaron Lanier também aparece no documentário, e ao ler aprofundei mais do quanto somos manipuláveis e baratos ao fornecer nossos dados e com eles as nossas competências às plataformas digitais. Contribuímos a tornar pessoas obsoletas, mesmo as de formação acadêmica.
Capa de Dez Argumentos para Você Deletar Agora suas Redes Sociais

Deletar ou não deletar, eis a questão!

Somos testemunhas do quanto a polarização incentivada nas redes sociais por meio do mecanismo de engajamento favoreceu inúmeros incompetentes a assumir cargos no governo público e até mesmo no meio privado, enquanto a população fica mais acomodada, sem iniciativa de buscar informação. Depois de tudo isso, a vontade imediata foi de largar as redes sociais, criar uma nova conta de e-mail e abandonar o Gmail. Percebi a ansiedade, então permiti tempo para refletir quanto a alternativas depois de lidar com tudo isso. Apesar de ainda não ter todas as respostas, apresento neste texto os primeiros passos a tornar o uso da rede mais saudável na minha concepção, tanto na perspectiva do usuário, quanto na produção de conteúdo.

O mal do Engajamento

Conforme vimos no documentário e Jaron faz questão de mostrar em seu livro, os programadores das plataformas digitais são gente feito nós, há nenhum vilão cartunesco por trás dos servidores do Facebook ou Google planejando manipular pessoas a brigarem entre si, por vezes levando a discussão virtual a agressões reais. Mesmo sem esta má intenção, na prática ocorre graças ao modelo de negócio que sustenta financeiramente essas empresas.
O Suposto hacker - O Dilema das Redes Sociais

A máscara está caindo, e por trás há só mais outro rosto humano

Vamos chamar toda campanha publicitária ou partidária existente nas redes sociais e páginas indexadas na SEO ― Search Engine Optimization, o mecanismo de classificação dos resultados mais atraentes em sites como da Google ― de produto. Este produto torna rentável ao proprietário quando atrai muitos usuários ativos nele, e serem ativos significam ir além de seguir e curtir a publicação deste produto. É comentar, compartilhar na própria timeline e dali gerar mais interações. Respostas de comentários também são ótimos índices de sucesso neste meio, isso segundo as métricas da postagem, pois ao conferir o que de fato escrevem, é bem provável encontrarmos discussões ofensivas.
Um lançamento de game exclusivo de certa plataforma gera críticas dos fãs da plataforma concorrente. A estreia de filme ou série ter protagonista homossexual ― às vezes basta ser feminina e hétero ― atrai críticas de gente alheia ao público-alvo. Nem preciso comentar quando a postagem é sobre política. Todos os participantes das discussões favorecem essas publicações, e ainda puxam consigo alguns extremistas que se destacam, atraem seguidores e viram outro “produtor de conteúdo”, abusam desta estratégia ao promover nessa interação online enquanto as empresas tentam promover o produto real.
Entre o dono do produto e os produtores de conteúdo competentes ou desses citados no parágrafo anterior a conseguirem atenção apenas por xingamentos, há inúmeros usuários sustentando o engajamento deles sem terem consciência disso por acreditarem contribuir com a sua opinião ou militar pela causa. Eles desesperam e caem na armadilha de tumultuar a rede, alguns tornam mais desses produtores de conteúdo vazio, outros apenas repetem informações prováveis de serem equivocadas. Ninguém tem de provar nada a ninguém, no entanto todos deveriam se informar melhor. Promova qualidade a si em vez de contribuir no engajamento alheio sem ganhar por isso.
Polarização - O Dilema das Redes Sociais

Polarização boa, é polarização inexistente

Aos produtores de conteúdo, é bom considerar remover a seção de comentários do seu site e dar menos atenção a opiniões desperdiçadas na timeline do perfil social. Vocês podem argumentar que assim perderão feedbacks construtivos. Têm razão, ainda há pessoas online dotadas da melhor das intenções, e por elas seria bom informar um endereço de e-mail para o qual podem te comunicar sobre o conteúdo. Dará mais trabalho transmitir o feedback, e isto favorece os interessados a fazerem o esforço de conversar em vez de tocar na barra de comentário, escrever palavras feias e enviar. Ainda haverá usuários a mandarem e-mail ofensivo, assim basta classificar como spam e focar nos interessados em contribuir. Aliás, caso tenha gostado deste texto ou queira contribuir com complementos ou críticas, mande mensagem no e-mail araujo.die93@gmail.com — caso eu saia do Gmail, mudarei o endereço aqui.

Esqueça a quantidade

Algoritmos das plataformas digitais agem conforme os dados recebidos, e antes de classificar esses dados e formular informações, os dados são números. Precisou averiguar diversos usuários com publicações de fotos em tons azuis, escuros ou escalas de cinza, para o sistema supor desses serem suscetíveis a depressão. Antes de identificar os jovens capazes de agredir a si mesmos, foi preciso analisar o padrão de comportamento online dos muitos que já o fizeram, assim experimentaram adequações de, segundo os desenvolvedores, prevenirem novos casos. É uma afirmação enganosa, deixa de ser prevenção quando o estrago está evidente, a iniciativa é na verdade a tentativa de solução a parar novos incidentes.
Os algoritmos de SEO também consideram os números, a quantidade de visitas de determinada página classifica a eficiência dela, depois cruza outros índices, os que classificam usuários nos diferentes tipos de perfis, por fim indica as páginas bem sucedidas a quem é interessado no conteúdo delas. Personaliza o uso online onde o usuário navega, mergulha e afunda em uma bolha sem saber. Depois de conhecermos inúmeros adeptos a teoria da Terra Plana graças a essa personalização de pesquisa online, pouco adianta responder que deixará os conteúdos do tipo sejam menos visíveis, o estrago já foi feito, os perfis transmitem as teorias defasadas entre si.
SEO - O Dilema das Redes Sociais

Há tantas características de SEO, que perde espaço das características de bom conteúdo

O mesmo pode acontecer no seu projeto ao considerar os objetivos na quantidade de acessos ou de público. Jaron desabafou de quando trabalhou como redator no site HuffPost e tentou atingir o público cada vez maior. Acabou por publicar conteúdo em que nem acreditava, só porque os visitantes online gostariam de ler e assim o aproximava da meta. Também começou a escrever sobre assuntos revoltantes, pois provocava os leitores a alimentarem o engajamento.
Outra estratégia bem comum, inclusive visível a muitos portais conhecidos da internet, é de exagerar na quantidade de matérias diárias, assim o usuário pode navegar entre elas e prolongar o tempo de interação no site. Isto prejudica o bem-estar das pessoas por sobrecarregar o tempo gasto online, e afeta também a qualidade do conteúdo, pois deixou de focar nisso em prol da quantidade tanto de produtividade quanto de acessos. Uma hora o público perceberá a superficialidade da matéria, e no fim você perderá os números inconsciente do motivo.
Muitos canais da plataforma YouTube tentaram seguir as diretrizes do site em publicar vídeos com frequência semanal, muitos desses sobrecarregaram e desanimaram de trabalhar por lá, ficaram em hiato, migrou a outras plataformas ou desistiram da periodicidade de vídeos. Certos canais conseguiram manter essa rotina de publicação, já eu parei de os seguir, deixaram de ser atraentes, e hoje perdi o costume de frequentar o YouTube, só vejo o que de fato me interessa ou atenda uma curiosidade particular.
YouTube

Rosto todo desfigurado, mas desde que atenda aos algoritmos de recomendação…

Atingir a quantidade corresponde ao sucesso momentâneo, sob prazo de validade. Caso produza trabalho online, foque a longo prazo e na progressão pessoal. Esqueça a meta do milhão de seguidores, talvez no futuro você consiga mil capazes de sustentar a sua produção porque acreditam valer a pena dedicar o tempo contigo em vez de desperdiçar inúmeras matérias lidas equiparáveis a metade de uma útil.
Atualizo este blog toda segunda-feira, às vezes consigo dois conteúdos na semana e publico na quinta também, então você precisa visitar o meu site somente uma vez por semana ao acessar conteúdo novo. Acabei de sugerir para sabotar o ranking do meu site, abrir mão das minhas visualizações, mas a minha utilidade na internet é garantir no máximo dois conteúdos novos toda semana. Só acessaria o XP Literário além disso para pesquisar algum conteúdo antigo. Recuso a encher o blog com postagens ínfimas até capazes de tomar o tempo de navegação e favorecer os meus índices no Google Analytics. Eu uso este espaço virtual a compartilhar o pouco que aprendo, longe de conquistar um sucesso superficial.

A timeline é infinita, nosso tempo não

Continuando no raciocínio dos sites prenderem a atenção, lembremos dos feeds das redes sociais. Deslizamos a tela dos smartphones e sempre encontramos postagens novas, com propagandas no meio. O nosso esforço é pequeno, em troca recebemos atualizações sobre a situação de nossos amigos online, as novidades dos noticiários, as conquistas daquele influenciador contente em compartilhar contigo um produto da marca obtido de graça ― ou foi pago para promover ― graças a você, seguidor fiel. Tanta gente tendo sucesso virtual, e você apenas deslizando o dedo no celular ou girando a roda do mouse. Começa a sentir apreensão, lembra apenas os fracassos na própria vida. O pior é a probabilidade dos supostos vencedores que você vê na tela também fazerem o mesmo é grande. As postagens infinitas consomem o tempo e diminuem a autoestima, a única vantagem dela é tornar viciante, e isso beneficia apenas a plataforma.
Tristeza na timeline - O Dilema das Redes Sociais

Tristeza na timeline

A solução é dada por Jaron no título do próprio livro: saia das redes agora. Já eu proponho uma alternativa, evite o feed infinito e assuma o controle. Escolha quais canais e pessoas acompanhar naquele momento e vá direto no perfil deles, assim olhará publicações antigas, já vistas da respectiva timeline, e pode se dar por satisfeito. Evite os perfis viciados na quantidade de postagens e lhe tomam tempo. Enquanto trafegar assim, lembre de evitar as seções de comentários, algumas podem estar contaminadas de polarização; em vez de contribuir no engajamento, favoreça o contato com a pessoa ou produtor e mande uma mensagem privada.

Seja mais ativo, e dê mais valor aos seus dados

Já reparou em quanto há novas funcionalidades que entregam resultados em vez de garantir a você ir atrás? A barra de pesquisa do Google é a mesma, apesar de ter um quadro no lado direito com as informações mais prováveis de os usuários quererem, portanto podem parar ali mesmo. O Google Tradutor converte a expressão no outro idioma conforme você digita, mas isso te ajuda a entender mais sobre esse idioma? No máximo tem a sugestão de outras palavras correspondentes a um resultado melhor as quais você irá selecionar e ensinar o sistema qual é a melhor opção de tradução, e você ainda nem entende o porquê.

Google

Nem todo estudo precisa começar dali

Os donos das plataformas digitais querem influenciar o consumo. Às vezes acertam e contribuem em entregar algo marcante, seja o curso ideal a desenvolver novas habilidades, seja música ou livro novo capaz de te distrair. Só evite de dar toda a confiança a esses algoritmos e descubra outras possibilidades por si ou pelas indicações dos amigos, então vá atrás você mesmo, depois nem precisa publicar a respeito. Faça caminhada, tomando cuidado a evitar infecção por coronavírus, ou caso faça parte do grupo de risco, planeje esta atividade quando a pandemia acabar. Veja a paisagem sem ter de postar foto no Instagram. Anote ideias valiosas para a vida, não um tweet. Quer empreender, então veja como pode ser feito no mundo real antes de promover no virtual.
Jaron fala em largar a rede social para forçar as empresas mudarem o plano de negócio. Minha sugestão ― talvez ineficiente pela minha inocência ou falta de referências, qualquer coisa manda um e-mail ― é tornar cada usuário mais valioso. Depende de cada um de nós. Precisamos ser mais exigentes e oferecer menos do nosso tempo online, valorizar o conteúdo em vez do sucesso da pessoa revertido em angústia a nós por não atingirmos o mesmo patamar. Parando de encarar os números, podemos obter mais resultados com menos seguidores, sendo esses os exigentes a valorizarem o nosso trabalho.

Referências

Dez Argumentos para Você Deletar Agora suas Redes Sociais
Autor: Jaron Lanier
Ano de Publicação: 2018
Editora: Intrínseca
Edição: 2018
Gênero: Não-ficção
Quantidade de Páginas: 190
O Dilema das Redes Sociais
Diretor: Jeff Orlowski
Estreia: 2020
Plataforma: Netflix
Gênero: Documentário
Duração: 89 minutos
Como o Facebook manipula os seus sentimentos
Como o YouTube impulsiona teorias conspiratórias sobre Terra plana
Does quitting social media make you happier?  Yes,  say young people doing it (reportagem em inglês)
Center for Humane Techonology — organização mantida por Tristan Harris, o principal entrevistado no documentário da Netflix, o site está cheio de conteúdo (também em inglês)

Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais

O título diz “agora”, mas pelo menos leia o livro antes de tirar as conclusões. Será melhor assim, a seguir as recomendações do autor, ou pelo menos recusar parte delas ― talvez até todas ― conscientes dos argumentos e da realidade apreendida após conferir a perspectiva de alguém atuante na área, além de embasar o raciocínio em reportagens citadas nos rodapés ao longo do livro. Jaron Lanier é o responsável por elaborar Dez Argumentos para Você Deletar Agora suas Redes Sociais e publicar num livro em 2018, trazido no mesmo ano pela editora Intrínseca, que curiosamente divulgou o livro através das redes sociais.

“Se você não fizer parte da solução, não haverá solução”

Os dez argumentos correspondem a capítulos sobre os tópicos elencados de forma progressiva, pois os capítulos anteriores servem de base aos próximos. Atuante na área de computação, Jaron Lanier aponta muitos exemplos pessoais no decorrer do livro, inclusive assume vender uma das próprias Startups a empresas as quais critica. O problema de Jaron está na metodologia de negócio implantada por essas empresas, pois sustentam a si ao custo de reduzir ou desvalorizar as qualidades dos usuários que a acessam de forma gratuita. Sem limitar apenas ao ponto de vista formado ao longo da carreira dele, o autor cita mais de uma centena de fontes, reportagens exemplares de mostrar os problemas vistos nos últimos anos por meio das redes sociais, não só elas na verdade, e sim por toda empresa capaz de assimilar a interação dos usuários nos seus serviços gratuitos e a partir disso personalizar novos conteúdos a ponto de manipular o comportamento deles.

“Não existe nenhum gênio maligno sentado em um cubículo de uma empresa de mídia social”

Conforme dito no parágrafo anterior, a melhor maneira de compreender o conteúdo do livro é o aproveitando de forma linear, evite pular a determinado argumento por achar o título dele interessante. Falando no título dos argumentos, a primeira vista eles soam sensacionalistas, e permanecem assim mesmo depois de conferir o conteúdo, afinal este discorre ao construir informações, mostrar as realidades provocadas pelo problema em foco e então desenvolve o argumento. Portanto se difere do apelo emocional enunciado no título, para um apelo racional direcionado ao leitor.

Ciente da perspectiva pertencente a ele, Jaron conhece o próprio limite de conhecimento e assume quando toca assuntos diferentes à experiência de vida dele, portanto o leitor deveria coletar outros materiais caso deseja entender melhor certos assuntos, enquanto Jaron foca nos problemas constatados pelas empresas manipuladoras. Tem a humildade de admitir desses serem os argumentos os quais domina, por fim incentiva os leitores pesquisarem os demais assuntos.

“A mídia social é tendenciosa, não para a esquerda nem para a direita, mas para baixo”

Ao elaborar motivos contrários às redes sociais, por vezes o autor cutuca tópicos passíveis de desencadear armadilhas de negar seu conteúdo a certas pessoas. Ao citar determinada figura pública, criticando diversas nuances de caráter mesmo quando consegue amarrar as características consequentes da rede social, tem o risco de revoltar leitores que admiram essa pessoa, invalidando os argumentos levantados só pela menção dela, independente da qualidade ou da realidade escancarada nas fontes ― conforme o próprio livro critica acontecer dentro das redes sociais. Na verdade isso pode acontecer por leitores influenciados pelo perfil virtual desta pessoa, então o livro não teria culpa, só poderia elencar argumentos sem citar o nome, estimular a todos tirarem as próprias conclusões, e assim poderia convencer até parte desses admiradores reconhecerem o problema causado.

Dez Argumentos para Você Deletar Agora suas Redes Sociais tem muito a oferecer e renderá uma matéria sobre como interagir no meio virtual sem ficar a mercê ― ou pelo menos diminuir ― da influência inconsciente proporcionada por empresas nada malignas, apenas dotadas de estratégias inconsequentes. Ao conferir todo o livro, poderá se dar a oportunidade de largar a interação passiva da rede social em troca de ir atrás do conteúdo útil.

“De início pode não parecer, mas sou uma pessoa otimista”

Capa de Dez Argumentos para Você Deletar Agora suas Redes SociaisAutor: Jaron Lanier
Ano de Publicação: 2018
Editora: Intrínseca
Edição: 2018
Gênero: Não-ficção
Quantidade de Páginas: 190

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